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edição 197 - Junho 2009
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Na casa de Freud
A residência ampla e acolhedora, no número 20 da rua Maresfield Gardens, região oeste de Londres, foi a última moradia do criador da psicanálise. Transformado em museu, o espaço guarda mais que objetos pessoais dos antigos moradores – permanece ali um pouco da história de incontáveis analistas e analisandos
por Moacyr Scliar
BLIBIOTECA DO CONGRESSO, WASHINGTON
Chegada a Londres, em companhia da princesa Marie Bonaparte (1882-1982), psicanalista e escritora francesa com quem estabeleceu forte amizade
[continuação]

É no gabinete que está o divã analítico original, trazido da Bergasse 19. Muito confortável, tem almofadas de chenile e está coberto com um tapete persa ricamente colorido. Sobre a peça há outros tecidos orientais. Para quem já freqüentou consultórios psicanalíticos isto não deixa de chamar a atenção.Por exemplo, quando comecei minha análise, a regra entre os freudianos era atender num ambiente o mais neutro e despido possível. Mas isso, pelo jeito, não preocupava Freud – assim como não o preocupava manter o distanciamento dos pacientes. Quando um deles, o aristocrata russo Sergius Pankejeff, conhecido como “o homem dos lobos” (por causa do famoso sonho em que via esses animais encarapitados em árvores, sonho esse retratado num desenho exposto no museu), ficou financeiramente arruinado, Freud lançou uma espécie de campanha no círculo analítico para ajudá-lo. Ou seja, tratava seus pacientes, ou pelo menos alguns deles, de forma especial. E talvez o divã, com seus tecidos e tapetes, desse testemunho disso.

Há mais, porém. No gabinete existem numerosas peças antigas, gregas, romanas, egípcias e do Oriente, algumas obtidas em sítios arqueológicos, a maioria adquirida de antiquários de Viena. A coleção completa totaliza mais de 2 mil objetos. Freud afirmava que sua paixão por antigüidades só era superada pela atração pelos charutos – enfatizando, contudo, que nem sempre esses últimos podiam ser considerados símbolos fálicos. Para Freud, a exploração arqueológica era uma metáfora para a investigação psicanalítica. E as diferentes culturas da Antigüidade tinham para ele significados diferentes. A cidade de Roma, sede do cristianismo, por exemplo, o perturbava. Não por acaso adiou várias vezes sua viagem para lá. Uma das coisas que então o fascinou foi a escultura do Moisés, de Michelangelo, na igreja de San Pietro in Vincoli. Em 1939, ano de sua morte, publicou uma de suas obras mais controversas, Moisés e o monoteísmo.
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Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.