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Artigos |
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| edição 197 - Junho 2009 |
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| Na casa de Freud |
| A residência ampla e acolhedora, no número 20 da rua Maresfield Gardens, região oeste de Londres, foi a última moradia do criador da psicanálise. Transformado em museu, o espaço guarda mais que objetos pessoais dos antigos moradores – permanece ali um pouco da história de incontáveis analistas e analisandos |
| por Moacyr Scliar |
| O príncipe do Egito |
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MUSEU SIGMUND FREUD, LONDRES |
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Freud lera algo, em trabalhos sobre egiptologia, sobre o príncipe Thotmes, que poderia, a seu juízo, ser Moisés; achou que o assunto deveria ser aprofundado por meio de pesquisa, mas não chegou a fazer isso. Não é difícil entender o conflito que o tema representava para ele, sintetizado na primeira frase do livro: “Privar um povo do homem celebrado como o maior de seus filhos não é um empreendimento gratificante ou fácil, principalmente quando se é parte desse mesmo povo”. A isso se deve acrescentar a circunstância histórica: colocar em juízo uma figura exponencial do judaísmo numa época de feroz anti-semitismo seria, no mínimo, uma inconveniência. Isso, no entanto, não dissuadiu Freud de seu propósito: “Nenhuma ponderação poderia induzir-nos a faltar à verdade”.
Ele começa discutindo a idéia de que Moisés era egípcio. O nome viria do termo egípcio mose, menino; Ptah-mose, por exemplo, significa o menino (ou o filho) de Ptah. Tal idéia estava longe de ser nova. Já tinha sido aventada por historiadores da Antigüidade, como Estrabão e Celso, pelo sociólogo alemão Max Weber e por pesquisadores bíblicos como John Tolland, isso sem falar nas alusões ao tema na obra dos psicanalistas Otto Rank e Karl Abraham. A ser verdadeira esta suposição, o monoteísmo dos hebreus seria uma forma de religião egípcia. Como se processou tal transformação? Em Totem e Tabu Freud descrevera a horda primitiva matando o pai, o macho mais forte, devorando-o e mais tarde cultuando-o. Em Moisés e o monoteísmo o tema do assassinato reaparecerá. Moisés, nobre egípcio, introduz os judeus, que viviam em servidão, ao culto monoteísta e intolerante de Aton, nome cuja semelhança ao de Adonai (uma das formas de tratamento para Deus, em hebraico) o autor nota. Moisés conduz o povo para fora do Egito, mas é assassinado – idéia que Freud tomou do erudito Ernst Sellin. O povo judeu passa a adorar Jeová, uma divindade do deserto considerada cruel e vingativa, até que um novo profeta, assumindo o nome de Moisés, apresenta uma religião, também monoteísta, mas baseada em princípios morais.
Diz Peter Gay, biógrafo de Freud: “Um fundador assassinado por seus seguidores, incapazes de se alçarem a seu nível, mas herdando as conseqüências do crime e se corrigindo sob o peso de suas lembranças – não podia haver nenhuma fantasia mais talhada para Freud. Tocava-o mais de perto o fato de se considerar o criador de uma psicologia subversiva, agora se aproximando do fim de uma longa e encarniçada carreira que encontrara sólidos e constantes obstáculos, por parte de inimigos abusivos e desertores covardes”.
Moisés e o monoteísmo foi, de maneira geral, mal recebido nos círculos judaicos, religiosos ou não. O filósofo Martin Buber rotulou-o como “um escrito não-científico, baseado em hipóteses infundadas”. Nos grupos cristãos a rejeição não foi menor, já que a análise de Freud não se restringe ao judaísmo. O assassinato de Moisés, diz, só veio aumentar o fardo da culpa ancestral carregada pelos judeus, e que começa com a noção do pecado original. Essa culpa, porém, ultrapassou os limites grupais; ela “se tinha apoderado de todos os povos do Mediterrâneo, como um vago mal-estar, como uma premonição cataclísmica”. O cristianismo proporcionou uma válvula de escape a esta opressiva situação, afirma Freud. O judeu Saulo de Tarso, depois chamado Paulo, deu-se conta de que o sacrifício de Jesus, filho de Deus, representaria oportunidade de expiação coletiva da culpa. (M. S.) |
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 | Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. |
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