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O ano infinito

Imaginar que o futuro não será a mera repetição do presente muda o aqui e o agora e nos permite apostar que outro mundo é possível

janeiro de 2017
Christian Ingo Lenz Dunker
SHUTTERSTOCK

Duas expressões correntes nesta época são: “Este ano passou tão rápido” e “O fim do ano nunca chega”. Nós nos acostumamos a enfrentar os típicos balanços de perdas e ganhos, os ajustes de contas com o ano passado e com nosso futuro no Ano-Novo. A expectativa de férias ou descanso pode ser vivida como o horror ao vazio dos cronicamente ocupados ou como um oásis prolongado dos que vivem um espaço-tempo feito de pressão e depressão.

Carnavais e melancolias à parte, este ano foi diferente. Desta vez, a tônica girou em torno do ano infinito. A sequência de notícias ruins formou um raro consenso brasileiro, um sentimento uníssono de “chega disso”. Se, depois do livro de Zuenir Ventura, 1968 ficou conhecido como o ano que nunca acabou, 2016 nos surpreendeu pelo caráter insaciável de notícias ruins e decepções. Se maio de 1968 deu contornos a uma nova atitude diante da educação e da sexualidade, criando uma nova valência ética para o corpo e para o desejo, 2016 parece ter posto ponto final na revolução sexual. Lá e cá tivemos passeatas e greves, atos institucionais e golpes, renovações judiciárias e tragédias morais. Se 1968 é o alpha, 2016 é o ômega, com seus quatro cavaleiros do Apocalipse: Zica, a peste; Síria, a guerra; Recessão, a fome e a Morte, dos desterrados, dos afogados, dos asfixiados, de todos os consumidos pelo mesmo fogo do ódio e da intolerância.

O filósofo alemão G. Hegel distinguia dois tipos de infinito. O infinito ruim, determinado pela repetição indefinida de um mesmo limite, e o infinito bom, caracterizado pela ideia de que o que temos hoje pode se tornar, realmente, outro. Trivialmente, é a oposição entre mais do mesmo ou a invenção de um outro. Como não sabemos o que virá, podemos dizer que a escolha nos é indiferente. Contudo, ela não é psicologicamente indiferente. Imaginar que o futuro será apenas uma repetição do presente muda o presente, muda a forma como estamos no aqui e agora. Apostar que outro mundo é possível também tem esse efeito – mas não porque nos transporta para ilusões otimistas sobre o futuro e sim porque nos faz decidir diferente o desejo hoje. O desejo finito ou o desejo infinito? A crença generalizada na autopreservação, a lógica da defesa, a hipótese do egoísmo (do outro, é claro) são figuras do infinito mau. E é por isso que sentimos que este ano nunca acabará. 

Este artigo foi publicado originalmente na edição de janeiro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2ifJfyD 

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