 |
|
 |
|
 |
|
 |
|
|
|
 |
Artigos |
|
|
| edição 147 - Abril 2005 |
 |
|
|
« 1 2 |
| O caso de Dom Quixote |
| A obra de cervantes, escrita há 400 anos, mantém-se um desafio tanto para médicos quanto para psicanalistas. |
| por Moacyr Scliar |
[continuação]
A eles juntaram-se, no início do século XX, os psicanalistas. Freud era um grande admirador de Cervantes e chegou a aprender espanhol para ler a obra. Fascinavam-no sobretudo os diálogos entre Quixote e Sancho, entre a fantasia e a realidade. Naquele momento de sua vida Freud estava empenhado na tarefa - em certa medida quixotesca - de consolidar a psicanálise como terapêutica e como corrente de pensamento. Esse interesse de Freud teria repercussões no Brasil, onde, no início dos anos 20, foi fundada a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, graças a Francisco Franco da Rocha e Durval Marcondes. Com este último, Freud pôde corresponder-se - devido ao conhecimento do espanhol.
A obra de Cervantes é um desafio para a psicanálise. Em Madness and lust (Loucura e desejo) a psicanalista Carroll B. Johnson conclui que Dom Quixote tem desejos sexuais reprimidos resultantes da convivência com a jovem sobrinha. Para defender-se da tentação ele refugia-se na imagem idealizada de Dulcinéia.
O paradigma que Dom Quixote representa continua bem vivo. Todo utópico é um quixotesco. Em que medida isto é elogio, em que medida é diagnóstico, continua sendo discutido. O certo é que, deitado no divã, Dom Quixote faria as delícias de muitos analistas. Desde que não atacasse o ventilador de teto, claro. |
|
« 1 2 |
 | Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. |
|
|
|
|
|
|
|
|