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edição 157 - Fevereiro 2006
O Hospital dos Incuráveis
Antes da criação de instituições psiquiátricas, doentes mentais eram tratados no sul da itália com banhos, vomitórios, jejum e castigos para "purificar o humor"
por Isaias Pessotti
Apenas na segunda década do século XIX, surgia o primeiro hospital especial para o tratamento médico de doentes mentais no sul da Itália. Foi a Real Casa dos Loucos, o famoso manicômio de Aversa. Até então, os loucos de toda a Itália meridional eram "recolhidos, alimentados e tratados" num setor especial, com-pre-en-dido na Real Casa Santa dos Incuráveis. Era um imenso hospital geral, o Ospedale degli Incurabili di Napoli, criado em 1519, e que acolhia, em diferentes edifícios, todo o tipo de doentes da região.

O tratamento, administrado pelo maestro dei matti (mestre dos loucos), incluía dietas, banhos, vomitórios, trabalho e freqüentemente castigos, como aconselhavam grandes autoridades médicas, entre elas L. Tozzi (Opera omnia, Veneza, 1711, t.1), para quem "qualquer tipo de loucura, dificilmente se rende à medicina, e reconduzir os dementes à reta via da razão é quase impossível".

Ao concluir que "os maníacos são contidos e reprimidos muito mais pelas pancadas, ameaças e censuras do que pelos fármacos, que nem querem tomar", Tozzi (sucessor de Malpighi e médico do papa Inocêncio XII) apoiava-se também na autoridade de Willis (1625-1675). "A finalidade primária é naturalmente curativa (...) a disciplina, as ameaças e pancadas são necessárias tanto quanto o tratamento médico (...) na verdade, nada é mais necessário e eficaz para a cura dessa gente que forçá-la a respeitar e temer a intimidação. Com este método, a mente, mantida a freio, é induzida a renunciar à sua arrogância e logo se torna mansa e organizada. É por isso que os maníacos curam-se com maior rapidez se são tratados com a tortura e a detenção em cela mais do que com os medicamentos." (Willis, Opera omnia, Lyon, 1681).
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Isaias Pessotti é escritor e ex-professor titular de psicologia da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto. É autor de Os nomes da loucura e O século dos manicômios.