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O potencial terapêutico da ibogaína

Pesquisadores brasileiros estão estudando o alucinógeno de uso xamânico secular para tratar dependentes químicos

abril de 2015
Sidarta Ribeiro
SHUTTERSTOCK

Somos uns exagerados. Quando descobrimos um novo prazer, tendemos a abusar, especialmente no início, quando ainda não temos experiência. Excessos diante do novo são comuns em nossa espécie. Felizmente, há males que vêm para o bem. Muitas vezes é um mal menor que cura o Mal maior. Assim é desde o início dos tempos. A redução de danos é quase tão antiga quanto o dano em si.

Pense na revolução sexual. A comercialização da pílula anticoncepcional deu origem às gerações mais amorosamente livres da história, mas a alegria durou pouco. A disseminação do HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis levou à política sanitária de estímulo ao uso de preservativos. Até os anos 80, eram raríssimas as pessoas dispostas a aderir ao sexo emborrachado. O preservativo parecia tão inútil quanto o cinto de segurança... Hoje ambos são imprescindíveis. A troca da conjunção carnal pela intimidade plastificada matou em parte a poesia do amor, mas salvou milhões de vidas em todo o mundo, além de reduzir a natalidade em países pobres marcados pela explosão populacional. A despeito dos protestos da Igreja mais conservadora, não foi o chamado à abstinência que refreou o avanço da AIDS, mas sim o estímulo, por parte de governos, organizações e indivíduos, ao sexo seguro.

No problema da dependência química a redução de danos é crucial. Há décadas usuários de tabaco adotam chicletes e adesivos de nicotina para parar de fumar. Em casos de dependência extrema, vem despontando o uso de substâncias psicodélicas. Um exemplo eloquente do potencial terapêutico dessas substâncias é o estudo sobre o uso da iboga para tratar dependentes químicos, recentemente publicado no Journal of Psychopharmacology por pesquisadores da ONG Plantando Consciência e pela Universidade Federal de São Paulo. A iboga é um arbusto africano de onde se extrai o potente alucinógeno ibogaína, de uso xamânico secular. No estudo de Eduardo Schenberg, Maria Angélica Comis, Bruno Rasmussen e Dartiu Xavier, 75 dependentes de cocaína, crack ou álcool foram tratados com ibogaína em ambiente hospitalar. Os resultados mostraram que 100% das mulheres e 51% dos homens tornaram-se abstinentes por vários meses após o tratamento, bem acima dos cerca de 30% alcançados por psicoterapia e outras terapêuticas para drogas.

A redução de danos também tem implicações diretas para a política de segurança. Desde o início do ano vem ocorrendo uma ofensiva inédita das polícias civil e federal contra os growers, isto é, pessoas que praticam o cultivo caseiro de maconha. Plantas e sementes vêm sendo apreendidas e ativistas vêm sendo presos e indiciados. Um deles, Flávio Dilan “Cabelo”, apresenta um quadro epiléptico que era medicado com maconha até a sua prisão. Hoje, encarcerado e apartado de seu cultivo medicinal, tem apresentado convulsões que o fragilizam no brutal ambiente da cadeia. É chocante que o aparato de repressão estatal se mobilize contra jovens que se recusam a alimentar o narcotráfico. A quem interessa tal situação? Certamente não à redução dos terríveis danos da guerra às drogas.

Este artigo foi originalmente publicado na edição de abril de Mente e Cérebro 2015, que pode ser adquirida na Loja Segmento: http://bit.ly/1FHaxa8

 

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