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edição 162 - Julho 2006
O sujeito cerebral
De órgão a ator social, o cérebro humano é cada vez mais percebido como aquilo que nos define.
por Francisco Ortega e Benilton Bezerra Jr.
Nas últimas décadas o cérebro vem se tornando, mais que um órgão, um ator social. O espetacular progresso das neurociências, a popularização pela mídia de imagens e informações que associam a atividade cerebral a praticamente todos os aspectos da vida, e certas características estruturais da sociedade atual têm produzido no imaginário social uma crescente percepção do cérebro como detentor das propriedades e autor das ações que definem o que é ser alguém. O cérebro responde cada vez mais por tudo aquilo que outrora nos acostumamos a atribuir à pessoa, ao indivíduo, ao sujeito. Inteiro ou em partes, surgiu como o único órgão verdadeiramente indispensável para a existência do self e para definir a individualidade. Com isso, o ser humano tornou-se o que alguns definem como "sujeito cerebral".

A importância das neurociências nas mais diversas áreas é objeto de pesquisas diversas que mostram como sua influência não só introduz um tema - a relevância do cérebro para cada disciplina específica - como reorganiza o próprio debate interno. Exemplos interessantes são as coletâneas Ecce cortex (Hagner, 1999) e Hirntod (Schlich and Wiesemann, 2001). Ecce cortex mostra como o cérebro adquiriu significados diferentes em áreas diversas (anatomia, psiquiatria, antropologia, psicologia, psicologia e arte), nas quais vem sendo incorporado como forma de exprimir ou encarnar princípios e programas próprios a cada uma delas. Hirntod ("Morte cerebral") desenha uma história cultural da definição de morte que tem na cessação da atividade cerebral o critério fundamental. A adoção desse critério, longe de circunscrever o debate nos limites do campo médico, fez com que ele ultrapassasse fronteiras disciplinares e culturais, precipitando querelas e análise jurídicas, filosóficas, religiosas, éticas e sociológicas.
Estudos como esses examinam as condições de possibilidades históricas e epistêmicas do surgimento da noção de ser humano como sujeito cerebral, mas não tratam do sujeito cerebral em si. Seu objeto comum é a história dos estudos do cérebro e a análise do seu impacto social, mas só recentemente esses dados têm sido conceitualizados como novo paradigma antropológico.
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Francisco Ortega e Benilton Bezerra Jr. são professores do Instituto de Medicina Social da UERJ e organizadores, junto com o Instituto Max Planck de História das Ciências de Berlim, do congresso "Neurociências e Sociedade Contemporânea".