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edição 153 - Outubro 2005
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O trauma de Bruce Wayne
O homem que se transforma no Batman apresenta indícios de sofrimento psicológico típicos de quem sofre de transtorno de stress pós-traumático.
por Júlio Peres
[continuação]

A memória traumática de ter visto os pais serem baleados acompanha Wayne de maneira vívida, tal como em muitos casos de TEPT, em que os indivíduos experimentam flashbacks e pensamentos intrusivos. As memórias traumáticas geralmente são fragmentadas e carregadas de forte expressão emocional, disparando estados de confusão, ilustrados no filme com as cenas de flashes dos conflitos internos e da luta contra as emoções negativas.

Nossa prática clínica mostra que determinadas memórias traumáticas levam a comportamentos destrutivos, tais como o abuso de substâncias e a automutilação. Entretanto, os eventos traumáticos em si não são determinantes isolados ou exclusivos do TEPT. Experiências intensas e devastadoras possuem efeitos variáveis, o que enfraquece o conceito de "reação universal ao trauma". Muitas vítimas procuram apoio profissional, literatura especializada e amizade, enquanto outras enfatizam o colapso e/ou a vitimização. Conforme Nolan: "Batman é humano, não é perfeito. Mas transformou suas emoções fortes e autodestrutivas em algo positivo".

Realmente, um trauma psicológico é capaz de fomentar comportamentos salutares de resiliência (capacidade de atravessar eventos traumáticos e de retomar qualidade de vida satisfatória). Wayne é orientado por Ducard e Rachel para buscar um sentido espiritual mais profundo de seu destino, assim como lembrar do legado de seu pai e da tradição filantrópica da sua família. Estudos evidenciam que práticas como a meditação e a oração exercem papel ativo no desenvolvimento de mecanismos de superação psicológica.

A motivação de encontrar novos objetivos e sentidos na vida, a crença que é possível influenciar o entorno e a opinião que se pode aprender e crescer a partir das experiências positivas e negativas também são comportamentos que conduzem a resiliência.

Um dos objetivos centrais das psicoterapias aplicadas às vítimas de traumas psicológicos é atribuir gradualmente novos significados emocionais à experiência traumática passada. O filme traz uma referência objetiva também encontrada no âmbito psicoterapêutico: transformar a dificuldade numa aliada do desenvolvimento pessoal.
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Júlio Peres é psicólogo clínico especializado em transtorno de stress pós-traumático, doutorando em neurociências e comportamento pela USP. Em 2004, ganhou o prêmio Sociedade Brasileira de Neurociências (SBNeC) com estudo sobre memórias traumáticas, psicoterapia e neuroimagem.