Ganhador do Oscar, Crash - no limite, de Paul Haggis, não tem protagonistas, vítimas ou bandidos. É um filme sobre a crueldade de todos nós
"As pessoas dão encontrões umas nas outras para buscar contato", diz o detetive negro para sua namorada branca mexicana, numa das cenas de Crash - No limite, Oscar de melhor filme deste ano. Assim como em Crash, estranhos prazeres, do também canadense David Cronemberg, o diretor Paul Haggis inicia seu filme com um acidente de carro. Na produção de Cronemberg as pessoas buscam sofrer acidentes de automóvel, pois acreditam que assim alcançarão um orgasmo único, intenso e definitivo.
Para Haggis, encontrões entre carros e pessoas são expressões de uma busca exasperada por contato - pura carência afetiva. Assim como milhares de jovens que marcam o corpo todo com tatuagens e piercings ou se cortam com estilete, os personagens vão às últimas conseqüências na procura por uma identidade que só se afirma com a dor e a morte.
Crash - No limite percorre as entranhas da natureza humana buscando a gênese da violência. A idéia do filme surgiu há dois anos quando Haggis e sua mulher foram vítimas de seqüestro relâmpago em Los Angeles. Com armas apontadas na cabeça, rodaram pela cidade. Momentos como esse, nos quais se experimenta a vida e a morte em seu limite, levam a indagações sobre a origem, os deflagradores e os movimentos da impiedade. Foi o que o filósofo francês Jacques Derrida nomeou como "um para além de qualquer princípio, a crueldade em estado bruto". Diante de Crash, resta-nos debruçar sobre essas questões dolorosas, sem álibis para assistir a um cinema que não foge das feridas do mundo contemporâneo. |