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Para não se perder de si mesmo

Nos últimos anos, cada vez mais pessoas têm deparado com a necessidade de amparar pessoas próximas – idosos ou acometidas por doenças e limitações severas – sem que tenham se preparado para tal

junho de 2017
Gláucia Leal
SHUTTERSTOCK

A palavra “cuidado” tem origem latina, cogitatu, vocábulo do qual derivam também “pensamento”, “reflexão” e “cura”. Pode parecer estranho à primeira vista, mas basta nos determos um pouco para nos darmos conta do quão intimamente ligadas estão essas ideias. Em suas várias facetas, o cuidar requer, por um lado, o planejamento racional e, por outro, recursos emocionais que ofereçam suporte a essa tarefa tão complexa. Nos últimos anos, cada vez mais pessoas têm deparado com a necessidade de amparar pessoas próximas – idosos ou acometidas por doenças e limitações severas – sem que tenham se preparado para tal. E não porque não saibamos que o imprevisto, a incapacidade (permanente ou momentânea) nos rondam. Como em outras épocas as pessoas evitavam pronunciar a palavra “câncer” numa tentativa pueril de afastar a patologia, muitas vezes, ainda hoje, postergamos conversas, decisões e providências, na tentativa de adiar a angústia – embora tenhamos conhecimento dos processos inerentes ao envelhecimento, por exemplo. 

Obviamente não é prazeroso pensar em como queremos atravessar situações dolorosas, mas nos aproximarmos dessa realidade e nos familiarizarmos com ela pode ser a maneira mais saudável de enfrentar esse momento. Caso contrário, quando surge uma situação “repentina” em que as limitações de um parente se impõem, em geral uma única pessoa termina se sobrecarregando com os cuidados – e, não raro, adoecendo tanto física quanto mentalmente, já que esse tipo de acontecimento tende a mobilizar profundamente a família, muitas vezes trazendo à tona mágoas e conflitos não resolvidos. Nos últimos anos, algumas linhas de pesquisa na área da psicologia buscam não apenas enfatizar a importância de preparar as pessoas para momentos de crise, mas também encontrar maneiras de aliviar o profundo cansaço e a solidão, tantas vezes vinculados ao ato de cuidar do outro – em geral, deixando de cuidar de si mesmo. 

Ainda nesta edição, tratamos de outro aspecto do cuidado, focando os adolescentes que em razão de variadas questões psíquicas e da dificuldade de lidar com pressões sociais também terminam por se perder de si mesmos – escolher a única saída que parece possível: a morte. Temas árduos, delicados, mas que pedem reflexão e cuidado, em nome de nossa saúde física e mental. E de uma possibilidade de cura – não como na medicina, privilegiando a erradicação dos sintomas, mas no sentido tomado pela psicanálise, que privilegia o acompanhamento e a possibilidade de transformação por meio do encontro e do afeto.   

Boa leitura.

Este artigo foi publicado originalmente na edição de junho de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento:

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