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Artigos

Plantas que trazem alívio

agosto de 2008
Na busca de novas drogas analgésicas, muitos pesquisadores brasileiros partem da observação do uso tradicional de plantas medicinais. Foi assim que a Croton cajucara – planta amazônica conhecida como sacaca – despertou o interesse de Frederico Argollo Vanderlinde, do Laboratório de Farmacologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A casca da sacaca é facilmente encontrada nos mercados de Manaus e Belém. Dois usos chamaram a atenção do farmacologista: contra processos inflamatórios e, paradoxalmente, contra úlceras gástricas. Em colaboração com a fitoquímica Maria Aparecida Maciel, do Departamento de Química da Universidade Federal do Rio Grande Norte, Vanderlinde identificou compostos terpenóides no extrato da casca da planta; efeitos antiinflamatório e antinociceptivo foram confirmados em animais. Contudo, eles só apareceram em doses muito altas, e a baixa solubilidade desses compostos exigiu grandes quantidades de solvente, resultando em uma mistura de elevada toxicidade.

Apesar dos resultados pouco animadores, os pesquisadores testaram outra fração do extrato das cascas da sacaca. Encontraram nela um alcalóide – ainda não identificado – que parece pertencer ao grupo da morfina. Em animais, essa fração apresentou um potente efeito antinociceptivo, reversível por um antagonista da morfina - logo esse alcalóide deve atuar no mesmo receptor opióide. No entanto, ficou provado que essa fração do extrato não exerce efeitos sobre o SNC, portanto o composto deve agir apenas sobre receptores opióides presentes nas terminações periféricas dos nociceptores, imaginam os cientistas, que atualmente trabalham no isolamento desse alcalóide da sacaca.

Outra planta pesquisada por Vanderinde, em colaboração com Sônia Soares da Costa, do Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é o Sedum dendroideum, um arbusto ornamental conhecido como bálsamo, cujo chá das folhas é usado contra dores e inflamações. Esses efeitos foram confirmados em testes com animais usando doses baixas do extrato aquoso. Experimentos recentes sugerem que o efeito antiinflamatório pode ser mediado por mecanismos semelhantes aos dos antiinflamatórios esteroidais - os corticoesteróides (drogas potentes, mas que causam muitos efeitos adversos). Quatro flavonóides já foram identificados nesse extrato do bálsamo. Se eles serão mais ou menos vantajosos que os atuais corticoesteróides, é o que os pesquisadores pretendem responder futuramente. (Luciana Christante)
© Donald Joski/Shutterstock
Atentos aos sinais. Estudiosos como Kanwajeet S. Anand, do departamento de anestesia do hospital infantil de Boston, alertaram desde a década de 80 que os recém-nascidos, mesmo os mais prematuros, são capazes não só de perceber estímulos dolorosos, como de expressar a dor. Foram documentadas evidentes mudanças no fluxo sangüíneo cerebral quando eles eram submetidos a procedimentos potencialmente dolorosos, como coleta de sangue ou aspiração das vias aéreas. Ao mesmo tempo, foram estudados prematuros submetidos aos mesmos procedimentos, mas recebendo sedativos e analgésicos.
Cada vez mais, bebês contam com analgesia e condutas humanizadas nos hospitais

Um amplo estudo epidemiológico, publicado em 2006 na França pelo Centro Nacional de Pesquisas na Luta contra a Dor, traz um mapeamento detalhado dos tipos de dores sofridas pelos bebês durante procedimentos neonatais. Cerca de 800 crianças foram observadas em UTIs neonatais e serviços móveis de urgência pediátrica parisienses, incluindo bebês prematuros. Somente nos 431 recém-nascidos acompanhados nas UTIs neonatais foram realizados 31.161 procedimentos dolorosos, entre punções, colocações de sonda etc. Embora os dados exibam taxas elevadas de intervenções dolorosas, indicam a conscientização cada vez maior de medidas sedativas e analgésicas, adequadas à faixa etária e condições físicas dos pequenos pacientes.

Outra conduta que merece destaque é a humanização hospitalar. No Brasil, duas pesquisas apontam o caráter subjetivo da dor e reforçam o potencial dos vínculos de apego para reconhecê-la e enfrentá-la. A enfermeira Adriana Moraes Leite comparou, em estudo de 2006, feito no Hospital das Clínicas da FMUSP, 60 recém-nascidos amamentados ou não pela mãe durante o teste do pezinho. A pesquisadora concluiu que a dor do exame é minimizada pelo aleitamento materno.
ILUSTRAÇÃO DE LUIS MOURA A PARTIR DE J.J. VOLPE, NEUROLOGIE OF THE NEWBORN, SAUDERS, 2001, P.465
Efeito da anestesia. No gráfico acima, observa-se o efeito da sedação na flutuação da velocidade do fluxo sangüíneo cerebral em um prematuro com síndrome de desconforto respiratório. Antes da anestesia, são evidentes as flutuações. Depois da anestesia induzida por curare (substância paralisante), o padrão de flutuação foi eliminado
Para isso, ela avaliou, por exemplo, a normalização da freqüência cardíaca dos bebês no período de recuperação do exame: antes da aplicação do teste do pezinho a média de batimentos cardíacos era de 134 por minuto; após o procedimento, os que mamaram rapidamente voltaram ao ritmo anterior, enquanto os que não foram amamentados mantiveram no período 189 batimentos por minuto. A enfermeira também analisou a mímica facial dos bebês, os estados de sono e vigília, o comportamento da mãe e de auto-regulação dos recém-nascidos.

A outra pesquisa, da pediatra Rita Balda, do Hospital São Paulo e Maternidade Santa Joana, buscou identificar quem reconhece mais facilmente a dor em bebês, se os profissionais da saúde ou os pais. O estudo foi feito por meio da apresentação de imagens de expressões dos bebês a 405 indivíduos. O resultado foi surpreendente: 86% dos pais acertaram a expressão facial da dor em seus filhos, em comparação a 74% dos profissionais.

Escalas comportamentais têm sido cada vez mais utilizadas nas unidades neonatais. Entre elas, a NIPS (sigla em inglês para Escala de Avaliação de Dor em Recém-nascidos), que analisa critérios fisiológicos e comportamentais, e a NFCS (sigla em inglês para Sistema de Codificação da Atividade Facial Neonatal), usada, por exemplo, no pós-operatório. (Da redação)
Luciana Christante é farmacêutica, mestre em neurociências e jornalista científica.