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edição 203 - Dezembro 2009
Prazer de receber presentes
As modulações bioquímicas influenciam a dinâmica cerebral e o estado de espírito; satisfação está relacionada à liberação dos “hormônios da expectativa”
 
© Andrejs Pidjass/Fotolia
Por Florence Noble

No fim do ano, as vitrines decoradas das lojas nos lembram que o Natal está chegando. E quanto mais próxima a data, maior o frenesi de consumo. Muitos são tomados pelo receio de não conseguir concluir as compras a tempo e de não serem capazes de escolher os presentes adequados para cada pessoa. Por que esse estado de espírito numa época em que deveriam coexistir o prazer de dar e o de receber? Essa angústia se deve ao fato de as festas enunciarem, de forma explícita ou não, a existência de vínculos – ou a ausência deles. A escolha de uma lembrança e a hora em que é oferecida estão inseridas em uma complexa demonstração social – com múltiplas formas de troca – que oferece pistas sobre aspectos psíquicos, relações familiares e laços sociais.
No momento em que recebemos uma lembrança que corresponde às nossas expectativas sentimos uma onda de prazer, uma ação que reside em conjuntos de neurônios específicos. Surgidos ao longo da evolução, eles cumprem uma função crucial: a manutenção da vida. Os sistemas cerebrais que mais influenciam o comportamento são os que nos levam a satisfazer as necessidades vitais (comer, beber, reproduzir-se e proteger-se). E o prazer é o meio empregado pelo processo evolutivo para que essas funções sejam asseguradas. Para favorecê-las foi desenvolvido o sistema neuronal da recompensa.
Ao longo dos séculos, o cérebro dos humanos e de outros mamíferos tornou-se diferente, principalmente em razão do desenvolvimento do córtex, o que propiciou um aumento na complexidade das conexões neurais. As estruturas mais antigas – onde estão as células neurais do sistema de recompensa no animal – permaneceram inseridas no cérebro ancestral, denominado reptiliano. Na década de 50, os fisiologistas ingleses James Olds e Peter Milner fizeram uma experiência sobre o circuito da recompensa: foram implantados eletrodos em determinada região do cérebro de ratos, o núcleo accumbens, ligados a uma alavanca que o roedor podia acionar. Durante a experiência, observou-se que o animal se apoiava sem cessar sobre a alavanca, estimulando essa região de seu cérebro, esquecendo-se até mesmo de comer e beber. Depois, os mesmos estudos foram feitos com seres humanos que haviam passado por cirurgia, e os resultados foram similares. Ou seja, o cérebro de fato anseia por gratificação.
Neurocientistas consideram também importante um componente da sensação de prazer que experimentamos ao ganhar um presente: a tensão que precede a recompensa. O neurologista Ray Dolan e outros pesquisadores do Instituto de Neurologia da Universidade de Londres mostraram que o prazer associado ao alimento, por exemplo, só é acompanhado por uma liberação de dopamina (hormônio do prazer por excelência) se o consumo já era esperado, o que corresponde à noção de desejo. A dopamina é liberada sob a influência de dois tipos µ e δ de substâncias chamadas neuropeptídeos, secretadas pelo cérebro: os peptídeos opioides endógenos (encefalinas) fixam-se sobre receptores engendrando prazer e euforia e resistência à dor, e, em caso de excesso, sedação imitando a ação da morfina.
Nos dois últimos anos, a importância do sistema opioide interno na dependência psíquica às drogas foi demonstrada em ratos desprovidos dos receptores de tipo µ. As encefalinas intervêm no comportamento ligado à dependência e são provavelmente secretadas enquanto aguardamos uma recompensa. Utilizando a técnica conhecida como microdiálise, pesquisadores mediram a concentração sináptica desses peptídeos no núcleo accumbens de ratos previamente condicionados à morfina.
O dispositivo experimental era constituído por duas áreas diferenciadas pela cor das paredes e pelo revestimento do chão. A primeira etapa foi de aprendizagem ou condicionamento. A cada dois dias, os animais tomavam uma injeção de morfina e eram colocados em uma das divisões; no dia seguinte recebiam um placebo antes de trocar de área: assim aprendiam a relacionar um meio específico com os efeitos positivos da morfina. Após o período de condicionamento, os ratos eram recolocados (sem injeção da droga) em uma das divisões e depois na outra. Quando os animais retornavam ao meio associado à morfina, os pesquisadores constatavam um aumento das encefalinas: o roedor antecipava a recompensa. Ao ser colocado no compartimento associado ao placebo, notava-se uma diminuição das encefalinas.
Com base nessas pesquisas seria possível falar em neurobiologia do prazer ligado aos presentes? Sem dúvida. As modulações bioquímicas observadas durante certas situações, no período de festas, por exemplo, certamente influenciam a química cerebral – e o estado de espírito. Extrapolando esses dados, podemos dizer que o prazer experimentado quando ganhamos um presente está ligado à ativação do sistema hedônico, proporcionada por neuromediadores de prazer (dopamina e encefalinas). Se, por infelicidade, o presente não chegar, é possível que a atividade hedônica diminua, ocasionando uma baixa momentânea de encefalinas. Essa reação desencadeia uma sensação de frustração – como a decepção da criança que não ganha um presente ou recebe algo diferente do esperado.
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