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Quanto mais usado, melhor

Quanto mais experiência têm os taxistas londrinos navegando (sempre de cor) pela cidade, maior fica a porção de seu hipocampo que representa a memória espacial

março de 2015
Suzana Herculano-Houzel
Iveta Angelova/Shutterstock

Quem diria, seu cérebro ganha de longe de qualquer computador. Sua máquina pessoal interna é portátil; faz muito mais com menos energia (funciona com uma potência de uns 22 Watts, menos do que opera uma lâmpada de abajur, contra 100 a 200 W para um desktop); reconhece facilmente padrões em imagens que programas elaborados ainda penam para avistar; e, melhor de tudo, somente o seu cérebro se adapta ao uso que faz dele mesmo, ficando cada vez melhor e mais ajustado ao que faz. Seu cérebro, graças à plasticidade que mantém ao longo da vida, se torna cada vez mais “seu”, cada vez mais personalizado.

As primeiras evidências de que mesmo o cérebro adulto é capaz de se modificar conforme é usado – ou seja, ainda é plástico, moldável como o material – vieram nos anos 1980. O neurocientista americano Michael Merzenich mostrou que, em macacos que precisavam usar a ponta dos dedos mais longos para tocar um disco giratório e ganhar comida, a representação no córtex cerebral desses dedos, e somente deles, expandia, conforme cada vez mais neurônios codificavam a informação que vinha dos dedos. Com isso, as pontas desses dedos se tornavam mais sensíveis, capazes de discriminar detalhes cada vez menores.

Na década seguinte, quando a ressonância magnética funcional começou a revelar a atividade de regiões diferentes do cérebro de pessoas acordadas sem que fosse preciso abrir sua cabeça para inserir eletrodos, como nos macacos de Merzenich, descobriu-se que o mesmo também acontecia em humanos que usavam maciça e preferencialmente somente alguns dedos: violinistas profissionais, cuja atividade depende da habilidade de posicionar ágil e precisamente os dedos da mão esquerda. Estudos mostraram que a representação cortical destes, e somente destes dedos, fica aumentada no córtex somestésico (quer dizer, tátil e proprioceptivo) correspondente. E quanto mais tempo os músicos tivessem de prática, maior era a representação cortical dos seus dedos da mão esquerda, e maior sua sensibilidade.

Logo se descobriu que o princípio não se aplica apenas à sensibilidade sensorial. Em um dos estudos que fizeram história na área, a inglesa Eleanor Maguire e seus colegas mostraram que quanto mais experiência têm os taxistas londrinos navegando (sempre de cor) pela cidade, maior fica a porção de seu hipocampo que representa a memória espacial.

Mas tudo isso parece ser resultado de uso altamente especializado, intenso e profissional de habilidades do cérebro. E com os outros de nós, reles mortais, que usamos nossos dedos para fazer coisas mais mundanas e menos poéticas ou desafiadoras, como por exemplo... digitar no celular?

Pesquisadores na Suíça e no Reino Unido resolveram abordar exatamente essa questão, aproveitando-se do registro de uso que todo smartphone leva em si, e do fato de que ainda há neste mundo (e talvez não por muito mais tempo) usuários de telefones que são, bem, apenas telefones.  E, usando eletroencefalografia para mapear o local e a intensidade da ativação no córtex cerebral em resposta a toques nos dedos, descobriram que, de fato, a ativação era maior para o polegar, dedo médio e indicador dos usuários de smartphones do que nos usuários de outros telefones.

E quanto mais intenso, e quanto mais recente, houvesse sido o uso do smartphone nos dez dias anteriores, maior era a ativação da representação cortical do polegar. Quem diria, usar seu smartphone muda o seu cérebro – e, só nos resta inferir, de um jeito que torna esse uso cada vez mais fácil e proficiente.

Este artigo foi originalmente publicado na edição de março da Mente e Cérebro, que pode ser adquirida na Loja Segmento: http://bit.ly/184InXR

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