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Ricos e pobres na universidade

Não basta aproximar a desigualdade; só é possível compartilhar um percurso – de desejo ou de amor, de angústia ou de gozo – sem se perguntar, o tempo todo, quem vai pagar a conta

maio de 2017
Christian Ingo Lenz Dunker
SHUTTERSTOCK

Nos dez últimos anos a universidade brasileira produziu um encontro inédito. Pela primeira vez, ricos e pobres conviveram em uma situação de igualdade de meios. Saímos da assimetria tão amarga que restringia este encontro à convivência entre patrões e empregados, à convivialidade familiar com os funcionários ou ao drama da ascensão social destituída de capital social ou cultural. Vários fatores concorreram para a produção desta nova paisagem: financiamentos estatais massivos, sistemas de cotas, mudança da representação social da educação, ampliação do número de vagas em universidades públicas. Junto com a diferença de classe surgiu uma nova sensibilidade para as diferenças de gênero, etnia, modos de sofrimento ou sintomas. 

O experimento continua em curso, mas agora que ele se consolida já podemos avistar com mais clareza os novos problemas que temos pela frente. Quem viveu este período pode sentir a mudança de temperatura na sala de aula. São alunos por um lado mais tímidos e, por outro, mais posicionados. A consciência da situação parece ter instituído antes de tudo um cuidado e uma atenção para a própria diferença. São trajetórias e formas de vida distintas que subitamente se encontram, sem aparente preparo preliminar. Uma aluna me confidencia seu constrangimento quando conta sua viagem a Paris, no retorno das férias, e se vê diante do olhar da colega querida, que jamais saiu do país. Outra me diz que se obriga a evitar palavras estrangeiras para não constranger as colegas que nunca frequentaram cursos de línguas. Uma terceira me conta o vexame criado pelos preços dos cosméticos preferidos de sua família. Resultado: silêncio respeitoso.

Do outro lado há os que se orgulham da façanha, que retomam suas origens e começam a apreender o tamanho do sacrifício e da desigualdade que compunha a realidade, até então apenas intuída pelas lentes das telenovelas. Há também os que se retraem com medo agudo de arriscar um comentário que revele sua fragilidade ou falta de repertório. Agrupam-se na turma do mesmo ônibus, amigam-se com os próximos e procuram espaços e experiências que os libertem do complexo de impostura e ilegitimidade. Se a vergonha é o afeto que denuncia a presença da fantasia, de fato este é o afeto que preside este encontro. Vergonha de constatar como a fantasia que o rico tem sobre o pobre é pobre. E a fantasia que o pobre tem do rico é igualmente frágil. Resultado: silêncio obsequioso. 

Não basta aproximar a desigualdade, chacoalhar bem e esperar que da linda mistura surja uma nova realidade. Assim como não é suficiente colocar crianças em inclusão escolar e esperar que uma verdadeira mudança aconteça pela mágica das coabitações. Não creio também que aulas de integração social ou discussões transversais regradas alcancem a essência da matéria. A real interessância do outro começa quando é possível compartilhar um percurso – de desejo ou de amor, de angústia ou de gozo – sem se perguntar, o tempo todo, quem vai pagar a conta. Isso só vai acontecer quando a “chapa esquentar” na sala de aula e o antagonismo puder ser reconhecido como uma experiência de saber comum, mais além dos direitos burocráticos de ocupar espaços.

Este artigo foi publicado originalmente na edição de maio de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento:

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