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Artigos |
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| edição 195 - Abril 2009 |
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| Segredos do cavalo-marinho |
| O hipocampo, um dos centros de processamento da memória, pode também ter papel importante na capacidade de fantasiar e desenvolver idéias |
| por Andre Fenton |
[continuação]
Mas isso não é tudo. Hassabis, exímio jogador de xadrez e empenhado construtor de jogos de videogame nas horas vagas, sugere que a construção mental seja outra forma de pensamento e uma operação-chave do hipocampo. Atribui, assim, a essa área cerebral tão estudada, um papel que não foi previsto por nenhuma das duas principais teorias sobre suas funções. A primeira – chamada memória relacional ou teoria mnemônica – estrutura-se em experimentos com primatas e sustenta que a principal tarefa do hipocampo é conservar as memórias explícitas e, em particular, eventos autobiográficos que se constituem na nossa vida assim como os recordamos. Além disso, foca no armazenamento dos fatos no tempo e no espaço: fui ao Centro fazer compras numa tarde de sábado muito quente; um funcionário me atendeu por alguns minutos; depois fui cortar os cabelos; apreciei o ar condicionado do cabeleireiro.
O outro ponto de vista refere-se à teoria do mapa cognitivo. Fundamentada em experimentos com ratos, afirma que o hipocampo organiza as recordações das experiências conservando- as num mapa cognitivo neutro, enfatizando o armazenamento dos eventos nesse espaço: entrei em três lojas e depois atravessei a rua para ir ao cabeleireiro. Nenhuma dessas hipóteses, porém, tem muito a dizer sobre a construção dos eventos, uma vez que a informação factual é conservada e acessível, também, por meio da imaginação. Hassabis e outros pesquisadores, contrariamente a essas teorias, defende que o hipocampo é fundamental na construção mental, independentemente da memória episódica – aquela que nos permite contemplar o futuro e rever o passado – e oferece elementos importantes para recuperação de lembranças e criação de possibilidades e cenários, ou seja, para a imaginação. Durante o estudo, cinco pessoas com amnésia causada por danos ao hipocampo – que têm dificuldade de formar novas memórias – deviam imaginar novas experiências, como a de encontrar-se dentro de um museu ou em meio a um mercado, por exemplo. A descoberta principal foi que os voluntários conseguiram imaginar os eventos propostos com mais dificuldade que os saudáveis. Um deles conseguiu imaginar tão bem quanto as pessoas sem lesão cerebral.
É neste ponto que confesso ter certo preconceito quanto à teoria de Hassabis. A minha área de pesquisa colhe sinais elétricos gerados pelos neurônios do hipocampo de ratos, enquanto eles tentam resolver problemas espaciais complexos. A esperança é de trabalhar a compreensão das bases neurofisiológicas do pensamento (ainda que não esteja comprovado que roedores pensem). Com efeito, conseguimos medir sinais fisiológicos que poderiam indicar que eles estão pensando, porém isso não nos trouxe, até agora, provas de que eles pensam, nem mesmo a explicação do que poderia causar os sinais elétricos. É desta experiência que deriva o meu ceticismo sobre os resultados de Hassabis: além desse déficit, não existe uma explicação para a escassa capacidade de imaginação dos pacientes com amnésia? |
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| Andre Fenton é assistente de fisiologia e farmacologia do Downstate Center da Universidade de Nova York. |
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