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edição 165 - Outubro 2006
Sobre golfinhos e asnos
por Sidarta Ribeiro
A inteligência dos cetáceos está sendo questionada com base em teorias ultrapassadas sobre a função da glia. A ciência não está a salvo de erros

Muitas vezes a teoria elaborada para explicar os fatos não faz sentido. Em outras são os próprios fatos que deixam de ser corretamente observados, o que resulta em asneira da grossa. Ainda assim a ciência tolera o dissenso. Seja por opção epistemológica, como preconizou o anarco-filósofo Paul Feyerabend, seja por inevitável proliferação de vozes díspares, pratica-se na ciência uma seleção de teorias que, mesmo ferrenha, raramente elimina por completo os perdedores. Para Feyerabend, a imensidão da nossa ignorância pede que se preservem para a posteridade todas as teorias, pois o erro de hoje pode ser verdade amanhã.

No mundo das idéias ninguém está a salvo do erro. O grande Aristóteles acreditava que a função do cérebro era resfriar o sangue. Um caso mais recente é o argumento de que os cetáceos, por terem em seu enorme cérebro alta proporção de células gliais, teriam baixa capacidade intelectual (Manger, Biol Rev Camb Philos Soc págs. 1-46, 2006). Segundo Manger, o excesso de glia seria uma adaptação termogênica à vida em água fria e redundaria em um aumento cerebral desacoplado da inteligência.
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Sidarta Ribeiro é Ph.D. em neurobiologia pela Universidade Rockefeller e pesquisador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN). Fez pós-doutorado na Universidade Duke (2000-2005) investigando as bases moleculares e celulares do sono e dos sonhos e o papel de ambos no aprendizado.