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Artigos |
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| edição 194 - Março 2009 |
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| Saga lusa : todo mundo tem seu dia de panda |
| Com bom humor, em linguagem fluente, Adriana Calcanhotto narra as agruras de viver um surto, acidentalmente induzido pela mistura de medicamentos |
| por Ines Loureiro |
O livro de estréia da cantora e compositora Adriana Calcanhotto, Saga lusa é o relato de uma (dupla) viagem: uma bad trip medicamentosa – efeito de uma mistura de remédios para a gripe com a cortisona de uso contínuo – ocorrida durante uma turnê em Portugal. Além dos sintomas da gripe propriamente dita (tosse, febre, rouquidão), o inferno de Adriana incluiu alucinações, medos intensos, agitação, crises de riso e choro, perda da fluência da fala e uma insônia persistente, só entrecortada por horríveis pesadelos. O inevitável cancelamento de shows e entrevistas acrescentou ainda mais angústia ao quadro, compreensivelmente vivido pela artista como um desastre em termos pessoais e profissionais.
Tal episódio pareceria sob medida para gerar uma narrativa sombria, fortemente egocentrada e carregada de autocomiseração. Mas acontece justo o oposto: conforme o dito popular evocado pelo psiquiatra na contracapa, Saga lusa é um ótimo exemplo da difícil arte de transformar o azedume do limão em deliciosa limonada. Adriana se revela dona de uma prosa fluente e coloquial, hábil em acompanhar o fluxo de pensamento e que tem no uso do humor e da auto-ironia seus traços mais marcantes.
O surto foi carinhosamente apelidado de “a Coisa”, ótima designação para isso que, sem nome, invade e ocupa o eu. O estranhamento de si prossegue no encontro com a imagem insone no espelho: com enormes olheiras, Adriana percorre sua saga acompanhada pela exótica figura do “urso panda disfarçado de cantora gaúcha”. Os capítulos em que conta como padeceu com a língua enrolada são dignos de figurar em uma antologia de humor. Convenhamos que a capacidade de rir de si mesma em uma situação dramática não é para qualquer um... Talvez a longa trajetória de psicanálise pessoal – mais de uma década – tenha algo a ver com isso (e também, é claro, com a possibilidade de escrever o livro).
E olhem que o limão era realmente azedo! O fato de ser uma intoxicação forte, inesperada e resistente a intervenções medicamentosas, assim como a circunstância de ocorrer em um país estrangeiro (quando se está literalmente em trânsito e sem a referência da rotina) decerto são fatores agravantes da situação. É de se perguntar como teria sido “a Coisa” – duração, intensidade, colorido afetivo – caso tivesse ocorrido em casa, sem a pressão de compromissos profissionais e na ronronante companhia da gata Bong Lé. É de cogitar, até mesmo, se um surto “doméstico” teria originado um produto como este livro. Por outro lado, não se trata de qualquer país – é Portugal, nação camonóloga – cuja estranha familiaridade conosco, sobretudo no que se refere ao idioma, talvez tenha contribuído para essa imersão lúdica na linguagem. Afinal, não é todo dia que se almoça um “prego”, que se está cercado por atendentes “giros” ou que o farmacêutico propõe um “Diazepam no rabinho”. |
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| Ines Loureiro é doutora em psicologia clínica, professora do curso de especialização em teoria psicanalítica da Coordenadoria Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão (Cogeae) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). |
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