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edição 159 - Abril 2006
Um caso de Jung
por Isaias Pessotti
Paciente e depois amante de Jung, a russa Sabina Spielrein tornou-se teórica brilhante da psicanálise e elaborou a formulação pioneira da pulsão de morte

Em 23 de outubro de 1906, Jung escreveu a Freud: "Estou aplicando atualmente o seu método ao tratamento de uma histeria. É um caso difícil: uma estudante russa de 20 anos, doente há seis anos... Primeiro trauma por volta dos 3, 4 anos...". Na carta, pedia o parecer de Freud sobre um dos sintomas: um estranho ritual "auto-erótico" ao evacuar.

Freud respondeu que o "trauma aos 4 anos teria reavivado traços de memória do primeiro ou segundo ano..." e recomendou seus escritos sobre auto-erotismo anal. Jung manteve Freud informado durante o tratamento, sem nomear a paciente e, sobretudo, sem revelar que a análise tinha evoluído para um relacionamento amoroso.

Ele tinha 30 anos; ela, 20. Graças ao tratamento, ou à relação amorosa, a paciente, Sabina Spielrein, curou-se, terminou o curso de medicina, e em 1911 defendeu uma tese brilhante, "O conteúdo psicológico de um caso de esquizofrenia (demência precoce)", em que analisa uma paciente sua, antes tratada por Jung e, como ela, apaixonada por ele. Uma experiência clínica única: a médica e a paciente, ambas cativadas pelo amor por Jung; uma, apenas liberta de uma psicose, a escutar outra em pleno transtorno psicótico. Uma curiosa forma de auto-análise.
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Isaias Pessotti é escritor e ex-professor titular de psicologia da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto. É autor de Os nomes da loucura e O século dos manicômios.