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Multimídia

A caça - Trailer oficial

Em A caça, fantasia de criança frustrada em sua demanda de afeto traz à tona impulsos coletivos de agressividade

agosto de 2013
Erane Paladino
Divulgação
Em 1995, os diretores dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier organizaram o movimento Dogma 95, voltado ao resgate do cinema realista, sem apelos comerciais e efeitos tecnológicos ou cenográficos que mascarassem a comunicação direta e sem disfarces. Mais interessados no conteúdo de seus trabalhos, geralmente densos e impactantes, esses diretores despertam a inevitável polêmica de quem marca sua diferença. Em A caça, Vinterberg não deixa de lado essa proposta e segue esse estilo. 

A trama se desenrola num vilarejo na Dinamarca num ritmo seco, com pouca luz e cenário simples, quase sem fundo musical. O protagonista, vivido pelo ator Mads Mikkelsen, é Lucas, professor de uma escola infantil que tenta refazer sua vida após um tumultuado divórcio. Nas horas de folga, aprecia a caça de alces e os alegres e descontraídos encontros com um grupo de amigos de longa data. Tudo começa a mudar quando a pequena Klara, interpretada por Annika Wedderkopp, uma das alunas, filha de um de seus companheiros, insinua o abuso sexual.

Mas o que realmente teria ocorrido?  Num ambiente familiar tumultuado, a menina de 5 anos acompanha as manifestações de rebeldia de seus irmãos adolescentes. Os garotos, que ainda não conseguem lidar com seus hormônios e impulsos em ebulição, apresentam a ela cenas de sexo na internet e usam vocabulário inadequado para a idade da menina. Aos poucos, Klara começa a se apegar mais intensamente ao professor. Mas ao lhe oferecer um presente e lhe pedir um beijo, sente--se rejeitada quando o educador não atende a sua demanda. Frustrada e com raiva procura a coordenadora da escola. Usa para se expressar a terminologia assimilada na convivência com seus irrequietos irmãos e alega ter visto o pênis de seu professor – “grande e duro como um bastão”.

Após esse evento, um enxame de acusações transforma Lucas num monstro indefensável aos olhos das pessoas com quem convive. Além de ser afastado de suas atividades profissionais, passa a ser evitado por todas as pessoas da comunidade, até mesmo pelos amigos. O clima na cidadezinha fica cada vez mais violento e, sem que ocorra alguma discussão mais cuidadosa sobre o caso, a situação culmina com a expulsão do professor.

Várias questões podem ser pensadas a partir do tema apresentado no filme. Podemos tomar duas delas para reflexão. A primeira diz respeito à necessidade grupal de escolher “bodes expiatórios”. A origem do termo está na tradição judaica: consta na Torá que o sacerdote colocava as mãos sobre o animal, confessava os pecados do povo de Israel para depois deixá-lo morrer ao relento, num ritual de purificação por meio do sacrifício. No texto Psicologia das massas e análise do eu, de 1920, Sigmund Freud cita o sociólogo Gustave Le Bon e apresenta uma discussão sobre o funcionamento grupal. Segundo o autor, ocorre no grupo uma espécie de “contágio” que acaba por diminuir consideravelmente os interesses individuais. O que é heterogêneo submerge no que é homogêneo. A capacidade individual para uma reflexão crítica torna-se rebaixada e ocorre uma visível regressão. As emoções se exaltam e as pessoas se tornam mais sugestionáveis: verdades absolutas e maniqueísmo inibem dúvidas e incertezas. Assim, a realidade perde espaço para a ilusão – uma ilusão autoritária, absoluta e coletiva.

A outra questão aparece numa frase dita várias vezes ao longo do filme: “Crianças não mentem”. Autores da psicologia do desenvolvimento e educadores de fato não discordam dessa frase: crianças em tenra idade não mentem – mas fantasiam e pouco sabem das consequências do que dizem. Se a palavra “ingênua” tem origem na ideia daquilo que ainda não nasceu, podemos inferir que Klara gerou, sem perceber, a revelação de questões e ansiedades latentes. Dominados por um furor maníaco, os habitantes do vilarejo passam a ver em Lucas a encarnação dos males mais profundos da coletividade. Conflitos ligados a possíveis desejos incestuosos reprimidos fazem do professor o depositário desses impulsos, vivenciados com repugnância pela comunidade. Fica manifesto em um só membro do grupo conteúdos que não podem ser reconhecidos ou sequer pensados. Nesses casos, a massa social cria uma espécie de autoproteção ao eleger seus bodes expiatórios, detentores de sentimentos e instintos que os grupos e seus componentes não são capazes de confessar. E para a defesa desse mal, qualquer crueldade e violência ganham uma inquestionável justificativa.

Leis e normas sociais existem para facilitar a organização de um grupo. A vida civilizada permite o desenvolvimento da cultura, da arte, da produtividade e criatividade. Mas deixar de lado singularidades e sentimentos reforça a constituição de uma sociedade totalitária, maniqueísta e infantil. A complexidade humana exige avaliações mais profundas: rigidez, preconceitos e discriminação são formas primitivas das quais alguns grupos lançam mão para evitar uma suposta ameaça. E a falta de flexibilidade pode trazer um efeito inesperado ao despertar, como numa manifestação sombria, a inevitável violência que a condição humana também traz consigo, mesmo que sob aparente controle.

Outro diretor de cinema, Stanley Kubrick, disse certa vez: “Estou interessado na natureza violenta e brutal do homem porque esse é seu verdadeiro retrato”. Experiências dolorosas da história podem confirmar essa dura frase.  E como todo animal caçado, o protagonista – que no início do filme perseguia alces – torna-se acuado, vítima de covardia e crueldade.

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