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Bactérias intestinais, cérebro e autismo

Alguns microrganismos podem agravar ou até mesmo causar sintomas da síndrome

novembro de 2014
Photo Researchers/Science Source/Getty Images

O autismo é um dos temas mais controversos no universo da saúde mental. Há certamente questões neurológicas envolvidas, mas muitos especialistas trazem também à tona a importância de considerar aspectos relacionais e afetivos ligados ao quadro. Existem até mesmo pessoas que não veem o autismo como uma patologia em si, mas uma condição psíquica com especificidades que devem ser compreendidas e respeitadas – e não tratadas com intuito de obtenção de “cura”. Nesse sentido, essa visão se aproxima muito do enfoque dado pela psicanálise em relação a diferentes casos. Em meio às mais variadas discussões, um dado chama a atenção de pesquisadores, médicos e psicólogos: até nove em cada dez pessoas com diagnóstico de autismo sofrem também de problemas gastrointestinais, em geral doenças inflamatórias e síndrome do intestino permeável. Nesse último caso, danos nas paredes dos segmentos do canal alimentar fazem com que seu conteúdo vaze na corrente sanguínea. 

Há algum tempo, os cientistas questionam se alterações no microbioma intestinal (composição de bactérias) nas vísceras abdominais poderiam provocar esses problemas em pessoas com autismo. Recentemente, diversas pesquisas passaram a apoiar a ideia e já sugerem que a recuperação do equilíbrio microbiano pode aliviar alguns sintomas comportamentais do transtorno. 

Pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona mediram os níveis de vários subprodutos microbianos nas fezes de crianças com a síndrome e os compararam com amostras de outras sem o diagnóstico, conforme relataram na reunião anual da Sociedade Americana de Microbiologia, realizada em maio em Boston. Eles encontraram diferenças significativas entre os dois grupos. Em outro estudo, feito em 2013 e publicado na PLoS ONE, pesquisadores italianos relataram que, em comparação com crianças sadias, as com autismo apresentavam níveis alterados de várias espécies bacterianas intestinais, como menor quantidade do gênero Bifidobacterium, um grupo conhecido por beneficiar a saúde do intestino. 

Ainda não está claro se as alterações microbianas impulsionam o desenvolvimento da doença ou se são consequência dela. Um estudo publicado em dezembro de 2013 na Cell reforça a primeira hipótese. Usando um paradigma estabelecido, pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia provocaram sintomas autísticos em camundongos ao infectar suas mães com um tipo de vírus molecular durante a gravidez. Após o nascimento, os cientistas observaram alterações nas bactérias intestinais dos filhotes em comparação com ratos sadios. Os cientistas inocularam nos animais um organismo chamado Bacteroides fragilis, o que diminuiu alguns sintomas, mas não todos: os camundongos passaram a apresentar comportamentos menos ansiosos e estereotipados e se tornaram vocalmente mais comunicativos.

Os pesquisadores ainda não sabem exatamente como essas bactérias podem influenciar o comportamento, mas acreditam que um intestino permeável permite que substâncias passem para a corrente sanguínea e prejudiquem o cérebro. “No estudo com ratos, o probiótico pode ter ajudado a restaurar o ecossistema microbiano, tornando mais robustas as paredes dos segmentos do canal alimentar, o que evitou o vazamento de conteúdos”, diz a microbióloga Elaine Y. Hsiao, pesquisadora do Instituto de Tecnologia da Califórnia e coautora do estudo. 

Essa pesquisa aumenta as esperanças de que um dia o autismo possa ser tratado com medicamentos para restaurar o equilíbrio microbiano. A síndrome, porém, é resultado de uma “interação complexa entre fatores genéticos e ambientais”, argumenta a farmacêutica Manya Angley, pesquisadora do distúrbio na Universidade do Sul da Austrália. O biólogo Sarkis K. Mazmanian, um dos coautores do estudo com os ratos, concorda. Em sua opinião, seria ingenuidade pensar em uma solução definitiva tão simples. 

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