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Dentro da casa - Trailer oficial

Adolescente escreve sobre colega e sua família como se fossem personagens e estabelece cumplicidade com seu professor

julho de 2013
Maria Maura Fadel



Confira a resenha do filme, escrita pela psicanalista Maria Maura Fadel, "O fascínio pela vida alheia":
Divulgação

O fascínio pela vida alheia

No início de mais um ano letivo, o professor Germain está entediado. Pede a seus alunos, a maioria com 16 anos, que escrevam sobre 48 horas de sua vida. As redações falam de pizza, programas de televisão, sono e... nada. Irritado por ter sido “agraciado” com “a pior das classes”, o homem de meia-idade partilha os textos e as impressões a respeito deles com sua mulher, Jeanne. Apesar de interessada, a prioridade dela parece ser a manutenção de seu emprego como coordenadora de uma galeria de arte moderna cujo proprietário faleceu. O esvaziamento e a superficialidade das narrativas lidas em voz alta por Germain, enquanto as corrige, em casa, são quebrados pelo texto intimista e revelador do jovem Claude. O adolescente escreve sobre a experiência de se aproximar de um colega da sala de aula, Rafa – um garoto “normal”, com pais “normais”. O objetivo é entrar na casa da família. É sobre a mistura de intimidades, de histórias que se cruzam mediadas pelo olhar do adolescente, que trata Dentro da casa, dirigido por François Ozon. 

Por si só, a curiosidade do personagem é compreensível. Ora, quem nunca quis saber como vive o outro, como são suas relações e sua sexualidade? No caso de Claude, no entanto, seu interesse e o plano de aproximação não se traduzem de forma banal. Ele se reconhece como “elemento estranho”, identificado com a imagem de um dragão sobre a TV que olha ameaçadoramente para a foto da “santa família” no porta-retratos. A forma que encontra para chegar perto do colega, oferecendo-se para lhe ensinar matemática, é premeditada. Antes disso, porém, ele já acompanhava a rotina da casa, estrategicamente sentado num banco de praça, na mesma rua. Uma vez no interior da casa o garoto percorre cada canto vasculha cômodos e objetos; observa, avalia gestos, aromas e costumes. Fragmentos de conversas ouvidos atrás das portas revelam os conflitos do casal e as angústias tanto de Rafa pai, quanto de Esther, a mãe. 

O voyeurismo experimentado pelo protagonista é estendido a Germain e Jeanne. No início o jovem se satisfaz em percorrer discretamente os cômodos da casa, na ânsia de olhar pessoas, até há pouco estranhas, que não suspeitam que estejam sendo observadas. Mas ele quer mais: vê (ou talvez apenas imagine ver) o casal fazendo sexo. No texto Três ensaios sobre a sexualidade infantil, de 1905, Freud associa o prazer de ver (escopofilia) à perversão. 

Expondo traços perversos de sua personalidade, o rapaz seduz o professor com suas redações que sempre anunciam que há mais por vir, já que ao fim de cada texto ele escreve: “continua”. Seduz também o colega, o pai e a mãe. Em algum momento do filme, cada um desses personagens, e até mesmo Jeanne, se apaixona por Claude. Mas é Esther, a mãe, que ele quer. Embora ele sinta no início certo desprezo pela mulher, por sua forma de falar e por seus anseios, aos poucos, porém, ela se torna objeto de seu desejo.

Ao penetrar na casa, organizada, limpa e cheirosa, Claude afasta-se da própria realidade: a vida em uma residência bem menor, com o pai, deficiente físico que parece ocupar pouco lugar na vida do filho, e a ausência mãe, que foi embora quando o menino tinha 9 anos. A história de abandono, certamente fonte de sofrimento, é estrategicamente usada pelo rapaz para conseguir a atenção e o afeto das pessoas, numa tentativa de manipular o outro. Não há nessa forma de relacionar-se qualquer resquício de culpa, e é como se as pessoas fossem realmente personagens que pudessem ser manipulados pelo garoto a seu bel-prazer. Em dado momento Germain orienta Claude: “Pare de pensar em meus desejos, pense em você, no que o excita”. Os desejos, porém, já parecem impregnados uns dos outros. 

A narrativa, marcada pela partilha, chega ao limite da contravenção. Reconhecendo seu lugar de educador, adulto e responsável, Germain teme as consequências de seu envolvimento, tenta diferenciar-se, mas não encontra em si mesmo forças para reverter a atração, é preciso que interdições externas o barrem – e elas inevitavelmente vêm. Estabelece-se um jogo entre o professor e o aluno – arriscado e ao mesmo tempo estimulante. O jovem escreve especificamente para Germain, que, por sua vez, vê nele o talento para a literatura que gostaria de ter. Isso se revela nas constantes conversas após a aula, que oferecem um toque de fantasia à rotina do professor. No lugar de observadores, Germain e Jeanne experimentam o gozo de acompanhar o desenrolar da vida alheia como se espiassem pelo buraco da fechadura. É a mulher quem se dá conta, em dado momento da trama, que, após a entrada de Claude na vida do casal, os dois já não mantinham relações sexuais – o desejo parece ter sido canalizado para o prazer de “olhar” os outros, ainda que por meio das palavras escritas pelo estudante.

Ao estudar o brincar e seu papel na organização psíquica, o psicanalista inglês Donald Winnicott afirma que não se pode entender a fantasia apenas como realização alucinatória do desejo ou como forma de enfrentar ou defender-se de uma realidade traumática, mas também como forma de estabelecer relações criativas com o mundo externo. O brincar – no caso de Claude, o olhar e a escrita – parece ter importância em si, não apenas como meio. “A fantasia é mais primária que a realidade e o enriquecimento da fantasia com riquezas do mundo depende da experiência da ilusão”, escreve Winnicott em 1945.

Desenhando na lousa, Germain ensina: “Um personagem quer realizar seu desejo, mas ao longo do caminho surgem obstáculos; Ulisses quer voltar para casa, mas o ciclope pretende matá-lo, as sereias o hipnotizam e as bruxas o sequestram”. Às vezes, porém, o conflito não está entre o herói e alguém de fora, é interno. Aquiles, por exemplo, se questiona se quer ir para Troia ou ficar com sua amada. Claude não parece ter dúvidas: ele quer fazer parte de algo, estar dentro. Não importa exatamente de onde, ele anseia ser incluído. Alimenta a ideia de que há outros personagens de quem se aproximar, outras vidas das quais se nutrir. Afinal, como o fim de seus textos indicavam, sempre “continua”...

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