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Multimídia

Elena - Trailer Oficial

Produzido e narrado em primeira pessoa, em tom poético e coloquial, documentário revela a intimidade da paixão da diretora por sua irmã mais velha, morta quando ela tinha 7 anos

junho de 2013
Pedro L. Ribeiro de Santi



Confira a resenha do filme, escrita por Pedro L. Ribeiro de Santi:
Divulgação

Vestígios de paixão e dor

A primeira dificuldade para abordar Elena é o grau de exposição em primeira pessoa daquela que é a um só tempo diretora, corroteirista e personagem: Petra Costa. Falar sobre o filme é falar sobre as pessoas que nele aparecem. Sabemos que toda forma de expressão traz a marca do sujeito que a produziu, mas, em geral, há certa elaboração e simbolização de modo que conteúdos pessoais sejam relativamente disfarçados e o produto artístico transcenda o artista. Diz a lenda que Salvador Dalí, em sua juventude, apresentou-se a Sigmund Freud. Os surrealistas adoravam a psicanálise, por considerar que atribuí-ra legitimidade à loucura. Há alguns esboços de retratos impressionantes feitos por Dalí. Depois da partida do jovem pintor, Freud teria dito que admirou sua técnica, mas não o considerara um artista, uma vez que o surrealismo não seria uma elaboração do inconsciente, mas a expressão direta dele. 

Tirando o exagero da avaliação, tive uma impressão semelhante ao presenciar (ou testemunhar?) a privacidade dos vídeos familiares presentes no filme. O limite entre o trabalho artístico e a exposição pessoal desaparece. Tive a experiência de ser – e ao mesmo tempo não ser – convidado a privar de uma experiência íntima.

O motor do filme é a paixão de Petra por sua irmã, 13 anos mais velha, Elena. Paixão, aliás, é bem a palavra: na seleção de cenas e locução, transparece a fascinação da caçula pela outra, espelho e modelo do que Petra deseja e aspira ser. Mas esse espelhamento se transforma em temor o destino, uma vez que a irmã se mata aos 20 anos. Essa morte torna-se um enigma e Petra passa a perseguir a compreensão do ocorrido. Toda a história familiar é revista e ressignificada: o farto material filmado torna-se fonte essencial dessa busca.

O material de vídeo começa a ser produzido quando a família sai da clandestinidade em que viveu nos anos 70, na ditatura. É como se a família passasse a existir – e quisesse guardar o registro e a prova disso. Os vídeos deixam de ser feitos quando Elena se torna adolescente e se distancia relativamente da vida familiar, na ocasião em que os pais se separam. A ausência do pai é gritante. Algo que passara a existir quando a família saiu da clandestinidade desaparece, então.

Conforme o tempo passa, a irmã mais nova vai se tornando fisicamente parecida com a mais velha e uma fantasia passa a perpassar a mente de todos: será que ela terá o mesmo destino de Elena? Quando Petra passa dos 20 anos, a mãe aponta o alívio da constatação: uma não é a outra.

Com a confirmação de que não havia identidade, mas identificação, Petra parece liberta para incorporar e transformar parte dos sonhos da irmã: transgride a demanda da mãe e se torna cineasta em Nova York. Elena segue sendo o objeto privilegiado das imagens, enquanto Petra assume, predominantemente, o olhar fascinado de quem produz e dirige, ainda que apareça no filme e faça sua locução. 

Ao longo do documentário, há uma transfiguração poética. Conforme o próprio luto de Petra vai sendo trabalhado, a morte de Elena passa gradativamente a ser referida à morte de Ofélia, personagem da peça Hamlet, de William Shakespeare. Ofélia se mata, enlouquecida, após ter seu amor renegado por Hamlet e o pai morto banalmente pelo amado. Seu irmão, Laerte, estava ausente e ela se vê abandonada. Nas interpretações psicanalíticas, particularmente de Lacan, Ofélia é desqualificada e esvaziada como um objeto, privada de palavra e desejo, até se anular: o suicídio é a confirmação do vazio que se tornou. A nota que Elena deixou na máquina de escrever logo antes de se suicidar evoca justamente esse vazio. Elena e Ofélia compartilham o suicídio, mas Elena tinha a mãe e irmã muito presentes. Enigma. 

A mãe, aliás, também sonhara com o cinema americano; embora já seja um clichê psicanalítico, o desejo não realizado da mãe é sempre impresso como demanda inconsciente nos filhos. Aqui, o documentário lembra grandes filmes, também perturbadores, como Cidade dos sonhos (2001) de David Lynch, ou Cisne negro (2010), de Darren Aronofsky, mas com a trama constituída sobre um denso material biográfico. O documentário se modula em ficção. As imagens são belíssimas, com corpos que boiam e se deixam levar pelo fluxo de um rio, como na morte de Ofélia.

A presença da mãe, também boiando, é de arrepiar. Numa cena de reconstituição de como encontrou Elena morta, em seu apartamento, a mãe não se contenta em descrever a posição, mas deita-se, ocupando a posição em que a filha estava: basicamente a mesma das mulheres que boiam no rio. Uma imagem bela e forte.

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