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Multimídia

O terceiro tempo do encontro

Marcado por cortes cronológicos, filme apresenta indícios de uma história iniciada há quase duas décadas

setembro de 2013
Pedro L. Ribeiro de Santi
Divulgação
Antes da meia-noite. 109 min – Estados Unidos, 2013. Direção: Richard Linklater. Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Seamus Davey-Fitzpatrick, entre outros
O filme Antes da meia-noite compõe uma trilogia tocante. Em 1995, foi produzidoAntes do amanhecer e, em 2004, Antes do pôr do sol, com os mesmos protagonistas: Jesse (vivido por Ethan Hawke) e Celine (interpretada por Julie Delpy). O intervalo entre as produções é materializado nas tramas. No primeiro encontro, eles tinham por volta de 23 anos, no atual, 41. É uma oportunidade única acompanhar o  amadurecimento dos personagens e seu destino. E perceber que, a despeito de serem dois atores bonitos, a marca da passagem do tempo se impõe – um brilho no olhar e certo sorriso simplesmente vão se apagando. Os três filmes são feitos de longos diálogos, pouca trilha sonora. Alguns momentos evocam no espectador a experiência do próprio casal: o encontro, a intimidade, o desgaste, o cansaço. 

O estabelecimento do corte cronológico entre os filmes produz um efeito estranho. Momentos importantes foram vividos nos intervalos entre eles, e só temos indícios do que aconteceu. Por exemplo: o segundo filme acaba com a promessa de que, afinal, eles começarão um relacionamento. O terceiro já os mostra casados. Nada sabemos sobre a separação de Jesse, a respeito do casamento deles ou do nascimento das gêmeas. Somos levados a fazer deduções de indícios oferecidos pelo filme.

No filme atual, eles passam férias na Grécia. Na primeira cena, Jesse está num aeroporto, acompanhando o filho adolescente até a sala de embarque. O menino parece indiferente às preocupações e tentativas paternas de estabelecer contato. O pai sofre com a separação; o garoto, aparentemente, não. Só no momento final ele parece dar o que o pai anseia receber: um grande  abraço e a declaração de que foram as melhores férias de sua vida. Esse é um dos pontos mais dolorosos da história entre o segundo e o terceiro filme. O casal vive na França e o rapaz mora com a mãe. Ao longo da trama, Jesse expressa seu ressentimento de morar longe do filho. E aqui aparece um dos dramas transversais da trilogia. No segundo, ele ainda estava casado com a primeira mulher. Apaixonado por Julie, considerando a possibilidade da separação, comenta o quanto seria terrível pensar em viver longe do menino. Vai se desenhando assim o movimento contínuo das negociações e concessões intrínsecas à vida de casal. Se cada um pudesse antever até onde teria de ceder para manter o relacionamento, talvez ele sequer começasse.

A reação de Céline é extremamente agressiva quando pressente que Jesse pode estar querendo mudar com a família para os Estados Unidos. Há grandes explosões de ressentimento, um culpa o outro por ter aberto mão de coisas essenciais para si – cada um sente que cedeu mais para que o parceiro sobrevivesse. O clima de boa parte do filme é pesado e, aparentemente, permeado pelo risco de que o casamento se desfaça. 

Dramaticamente, ela chega a perguntar: se hoje ele a conhecesse num trem, como há 18 anos, a abordaria e convidaria para descer com ele, como fez na ocasião? Ele diz que sim, é claro, mas não soa convincente. 

Noutro corte transversal, é interessante ver como a temporalidade estabelece graus distintos de vínculo e interação entre o casal e outras pessoas. No primeiro filme, em clima de encontro, eles vagueiam por Viena e, eventualmente, falam com pessoas com quem deparam.É um tempo de encontro e disponibilidade. No Segundo filme, o reencontro em Paris produz um desejo potente de estarem juntos, de modo que eles não falam com ninguém e o filme termina com Jesse deixando-se perder o avião para permanecer com ela. É um tempo de grande intensidade e decisão: é preciso agir para preservar o encontro. No terceiro, há menos tempo partilhado como casal. Há uma extensa cena numa mesa de almoço com muitos amigos, além das passagens em que estão com as filhas. Durante a refeição, eles trocam indiretas e provocações. Todos os retratos de desgaste da vida cotidiana em comum ganham contrapartida com a fala de uma mulher viúva que, saudosa, luta para preservar a memória do marido.

O momento que se apresenta como a possibilidade de estarem a sós dispara o resgate das pendências e ruídos. A cena é conhecida por muitos casais com filhos. Os amigos oferecem aos dois a oportunidade de terem uma noite a sós, sem as crianças. A situação, no entanto, se torna forçada: é como se eles tivessem de se divertir e transar. Mas o que está no atraso – à espera por uma oportunidade para emergir – é a mágoa, antes que o desejo. A saudade que cada um sente de si é maior que aquela que sentem do casal. O companheiro amoroso é agora confundido com o peso do cotidiano e da rotina. Jesse tenta, ainda que artificialmente, manter um ambiente de proximidade, mas Céline o confronta. É exaustivo.

A consciência das perdas advindas da temporalidade é transformada em raiva e toma como objeto aquele que está mais próximo, o cônjuge. É como se o outro fosse o culpado por tudo, inclusive pela passagem do tempo. Reservamos nosso pior e nosso melhor para aqueles que amamos.

Não se trata, porém, de uma narrativa simplória: não parece haver alívio quer no encontro, quer na solidão. Os cenários gregos evocam um passado em ruínas que se perde aos poucos. A beleza e o romantismo dos dois primeiros filmes são trocados pela dureza da vida. Mas, contra todas as expectativas, há indícios de que o vínculo amoroso pode ser resgatado (ou o roteirista resolveu não nos deixar sair do cinema arrasados). Os dois primeiros filmes são românticos e terminam em aberto; o terceiro é mais realista e duro, mas oferece ao final o reasseguramento e conforto de que o vínculo é forte e pode sobreviver na vida real, já distante do encontro apaixonado e fortuito num trem.

Torço para que, em nove anos, mais um filme seja produzido (e, quem sabe, assim sucessivamente por mais algumas rodadas). Como estarão os personagens aos 50 anos, juntos ou separados? Mais ou menos felizes? Mais ou menos em paz consigo mesmos? Em qual bela cidade se passará o filme? Como poderá se chamar o quarto filme: “Antes que seja tarde”, talvez?

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