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Multimídia

Possuídas pelo invisível

Talvez a histeria tenha sido a única forma que  tantas mulheres tenham encontrado para ser e existir em um mundo sem espaço para a expressão da sexualidade feminina

outubro de 2013
Maria Maura Fadel
Divulgação
Augustine. 102 min – França, 2013. Direção: Alice Winocour. Elenco: Ange Ruzé, Audrey Bonnet, Chiara Mastroianni, Grégoire Colin, Lise Lamétrie, Olivier Rabourdin, Roxane Duran, Soko, Sophie Cattani, Stéphan Wojtowicz, Vincent Lindon
Paris, fim do século 19. Numa casa luxuosa, uma jovem criada serve patrões e convidados durante um animado jantar. Todos estão entretidos na conversa e ninguém parece prestar atenção a ela – exceto um rapaz que, sentado à mesa, acompanha insistentemente os gestos da moça até que ela perceba seu interesse. Na sequência, porém, a jovem começa a sentir tremores na mão direita. Tenta disfarçar e continuar o trabalho, mas já não tem controle sobre o próprio corpo. Movimentos descompassados a sacodem; ao cair, ela tenta agarrar-se à toalha da mesa, mas só o que consegue é atirar pratos, travessas e talheres ao chão, enquanto é dominada por convulsões. Todos assistem ao triste espetáculo como se acompanhassem uma espécie de show. A moça que pouco antes parecia invisível torna-se, ao menos por alguns instantes, o centro das atenções. Ao voltar a si – violentamente arrancada do transe após uma empregada da casa atirar em seu rosto uma jarra de água – está com a mão e o olho direito paralisados.

Assim começa Augustine – mesmo nome da protagonista, interpretada pela cantora Stéphanie Sokolinski, conhecida por Soko. O filme, com direção da francesa Alice Winocour, inspirado numa história verídica, apresenta os primórdios das investigações sobre a histeria no Hospital de La Salpêtrière, onde o médico Jean-Martin Charcot, vivido por Vincent Lindon, estuda a misteriosa doença que atinge apenas as mulheres e, muitas vezes é interpretada como possessão demoníaca. É possível estabelecer relação entre essa obra e outra que esteve em cartaz recentemente, Um método perigoso, de 2011. Dirigido por David Cronenberg  (resenha na edição 233 de Mente e Cérebro, em junho de 2012), esse filme também aborda a investigação e o tratamento de sintomas histéricos. Este último, porém, se passa alguns anos mais tarde, enfocando o tratamento oferecido por Gustav Jung a Sabina Spielrein, que mais tarde se tornaria psicanalista.

Mas voltemos a Augustine. Na sequência da crise, na manhã de um dia cinzento e gelado de inverno, a moça se dirige em companhia de uma prima a Salpêtrière. Já na primeira noite no hospital, enquanto a nova paciente reza pela cura, invocando seu anjo da guarda, uma colega de quarto, a algumas camas da sua, lhe diz que ali dentro é preciso “rezar para Charcot”. Em seguida, entretanto, acrescenta: “Mas ele não ouve”. De fato, saber com as pacientes se sentiam (além dos sintomas), o que pensavam a respeito do próprio processo de adoecimento e teriam, eventualmente, a trazer sobre suas histórias não parecia importante. Mesmo as perguntas objetivas a respeito das possibilidades de cura caíam no silêncio angustiante da falta de respostas.

Nesse ponto é quase impossível não pensar que quem daria a voz às histéricas e de fato se proporia a ouvi-las seria o aluno mais famoso de Charcot, o neurologista Sigmund Freud. Anos depois, ainda inexperiente, no começo de sua carreira, ele passaria algum tempo em Salpêtrière acompanhando o professor francês, naquilo que era um misto de aula e espetáculo, muitas vezes encenados para políticos e profissionais de outras instituições com o objetivo de que as pesquisas sobre histeria fossem reconhecidas.

Mas na maioria das vezes era mesmo diante de um seleto grupo de homens atentos – a maioria médicos sérios e bem vestidos – jovens mulheres, em geral vindas de famílias pobres, demonstrando sintomas estranhos que não tinham correspondente físico que os justificassem, eram apresentadas, hipnotizadas, tocadas e, não raro, exibiam para a plateia desmaios, convulsões, enrijecimento do corpo, resistência à dor quando eram perfuradas por agulhas. Foi assim com Augustine, que se tornou uma das prediletas do médico. Empenhado em fazer com que a neurologia fosse reconhecida como ciência, o filho de um fabricante de carruagens, que lentamente ascendera socialmente, buscava classificar o que chegou a chamar de “museu de patologia viva”. Trabalhando com a população que residia na instituição fez observações detalhadas sobre doenças neurodegenerativas como coreia e ataxia. Mas seguia a linha teatral, que parecia bastante aceitável na época.

Assim, nuas e caladas (pelo menos até que seus gritos e gemidos se fizessem ouvir), as histéricas eram expostas, observadas, manipuladas. Para essas moças – susceptíveis a forças invisíveis, como o hipnotismo – ser examinada, tratada, (enfim, escolhida) por Charcot era uma espécie de deferência. No filme, Augustine (em algumas anotações de Charcot chamada de Louise, L. ou X., chamava-se na verdade Louise Augustine Gleizes) se destaca da multidão de mulheres ao sofrer fortes espasmos, “coincidentemente” quando o médico passa por um corredor próximo à cozinha onde ela ajuda outras internas a preparar o jantar. As cenas em que Augustine se contorce no chão lembram uma relação sexual, na qual o parceiro que a toma é invisível e ela faz movimentos ritmados com o quadril, se acaricia. Ao mesmo tempo, porém, mostra partes do corpo completamente inertes, insensíveis ao toque ou mesmo à dor. 

A sexualidade implícita, contida, ameaçadora permeia toda a trama. Essa tensão paira no filme – assim como na época em que se passa a história – seja na cor da roupa da protagonista que muda do tom pastel para o vermelho berrante (quando ela tem sua primeira menstruação), seja na mudança repentina de Charcot quando se aproxima demais de Augustine e se vê constrangido. A relação entre os dois tem caráter claramente transferencial (conceito que aborda o deslocamento de intensos afetos dirigidos pelo paciente a figuras parentais no passado para o terapeuta no presente só seria apresentado mais claramente por Freud a partir de 1912). Em algumas cenas a beleza, juventude e sensualidade dissimulada de Augustine parece desorientar completamente o médico, que por sua vez reage tentando afastar-se dela. A moça busca ser única e especial para ele – e muitas vezes atinge seu objetivo.

A respeito dela, Bourneville escreve: “Ativa, inteligente, afetuosa, temperamental e gosta de chamar a atenção sobre si. É vaidosa, gasta tempo com a aparência e em arrumar seu abundante cabelo em um estilo ou outros, tendo um gosto especial por fitas e cores vivas”. Não fossem os desmaios e paralisias, parece que esse relato poderia se adequar a grande parte das jovens mulheres saudáveis. O adoecimento de Augustine, entretanto, talvez não deva ser compreendido como um fenômeno isolado. Buscando refletir a respeito das tramas que subjazem às relações terapêuticas, é possível pensar que esse processo de adoecimento seja resultado de um jogo (às vezes mais, às vezes menos explícito) travado entre perspectivas psíquicas, biológicas e culturais. Ou seja: a doença tem em si algo de “móvel”, podendo assumir diferentes roupagens em variadas sociedades e momentos históricos. A histeria, um mistério que tanto fisgava e desafiava profissionais da saúde há mais de um século (não que hoje não o faça, mas passadas tantas décadas há outros aspectos a serem considerados) traz em si a marca da cultura e da relação entre médico e paciente. Assim como Augustine, Genevieve, Blanche e tantas outras mulheres compuseram uma notável coleção de histéricas que dolorosamente exibiram seus sintomas, atraindo os olhares fascinados de seus médicos. Talvez tenha sido essa a única forma que encontraram para ser e existir em um mundo masculino, onde só havia espaço para a sexualidade encerrada sob espartilhos, mas não para a expansão da subjetividade e da criatividade do feminino.

Leia mais:

"O terceiro tempo do encontro", resenha do filme Antes da meia-noite (2013)

"O contágio da brutalidade", resenha do filme A caça (2013)