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Multimídia

Resgate do Passado

Dirigido por Robert Redford, Sem proteção trata de lembranças, sentimentos e convicções ideológicas que, reprimidos por anos, ressurgem com intensidade

outubro de 2013
Simona Argentieri
Divulgação
Sem proteção. 120 min – Estados Unidos, 2012 Direção: Robert Redford. Elenco: Robert Redford, Susan Sarandon, Julie Christie, Shia LaBeouf
“Você não precisa de um meteorologista para saber de que lado o vento sopra”, canta Bob Dylan na canção Subterranean Homesick Blues, de anos 1965. Embalados pelo verso, o idealismo e a aura transgressora do final dos anos 60 jovens se organizaram no grupo radical de esquerda Wheater Underground (algo como “meteorologia subterrânea”), para protestar contra a guerra do Vietnã e pelo retorno dos soldados americanos. Promoveram ataques armados a locais estratégicos, como instituições militares e governamentais, e foram caçados como terroristas pelo FBI. Sem proteção, adaptação para o cinema do romance homônimo de Neil Gordon sobre esse grupo que realmente existiu nos Estados Unidos, mistura fatos e ficção para contar o rumo que tomaram alguns membros do grupo no século 21. Em 2012, as convicções mudaram, os ativistas envelheceram e muitos deles viveram as últimas três décadas com identidades falsas, em diferentes cidades do país. Um deles, Jim Grant (Robert Redford), tornou-se um advogado com uma rotina tranquila num subúrbio americano, com as preocupações bem divididas entre o escritório e os cuidados com a filha de 12 anos. 

As recordações da militância política parecem esquecidas e distantes, escondidas junto com documentos falsos e dinheiro no fundo do armário, até que uma antiga companheira de luta se entrega à polícia e fatos do passado começam a vir à tona. Protagonizado, dirigido e produzido por Redford, o filme trata de compromisso com o próprio passado: de lembranças, arrependimentos e convicções ideológicas que, apesar de massacrados pelo passar dos anos, ressurgem com intensidade.

Depois da prisão da amiga (Susan Sarandon), Grant percebe que pode ser descoberto em pouco tempo. Sua identidade é logo revelada por Ben (Shia LaBeouf), um ambicioso jornalista de um pequeno jornal local que levantou dados sobre um assalto a banco por militantes do Wheater Underground que terminou no assassinato de um segurança – e todas as pistas indicam que o autor do crime é Grant. A calma e confortável vida clandestina desmorona em poucas horas - praticamente sem vínculos, é obrigado a deixar a filha na casa de seu irmão, com quem não se relaciona há décadas, e viaja por vários estados à procura de ex-companheiros de militância que possam testemunhar sobre sua inocência, entre eles um antigo amor (Julie Christie). Ao medo de ser acusado, somam-se lembranças permeadas de culpa, como o fato de o homem morto ser pai de dois filhos. Desse momento em diante, o filme ganha ares de suspense, com rápidas tomadas de perseguição policial, o que não prejudica a profundidade dos diálogos com os ex-militantes, agora velhos, que o protagonista encontra pelo caminho, confrontando lembranças com a realidade atual de cada um. Enquanto uns permaneceram firmes aos seus ideais, outros buscaram se enquadrar na sociedade – coincidentemente, são os que ficam mais incomodados com o aparecimento do colega.

Reveladas ao longo do filme, as investigações do jornalista deixam poucas dúvidas de que Grant não tem nenhuma culpa. No entanto, o roteiro habilmente propõe uma reflexão: é justo responder por um crime cometido há mais de trinta anos, quando é evidente que o autor tornou-se uma pessoa completamente diferente? São apresentados dois pontos de vista diferentes, ambos pela personagem interpretada por Susan Sarandon, que confessa sua participação no assalto. Logo depois da prisão conversa com o jornalista e diz ter plena consciência de que cometeu um erro e que não poderia deixar de pagar sua dívida com a sociedade. No entanto, também pede a ele que se questione se a perpetuação da guerra do Vietnã pelo governo não deve ser considerado crime tão ou mais hediondo.

Infelizmente, a culpa íntima e as verdadeiras consequências de nossos atos do passado remoto não podem ser ressarcidos com expiação ou esquecimento. O enredo lembra muito outro filme, produzido há mais duas décadas, O peso de um passado (Running on empty, 1988), do diretor Sidney Lumet - nesse caso, mais bem-sucedido em captar os conflitos internos dos protagonistas do que Redford. O filme é baseado na história real de um casal de ex-militantes que fez um atentado a bomba contra uma fábrica de napalm. Assombrados pela culpa, eles decidiram abandonar o ativismo e viver na clandestinidade. Ao longo de 16 anos, mudaram de nome, cor do cabelo e endereço a cada seis meses. Mantinham uma Kombi sempre abastecida com roupas e alimentos caso fosse necessário fugir. Esse meio de vida abalou principalmente seus dois filhos, que cresceram em uma atmosfera de segredo. Não é necessária uma perseguição policial para desenterrar o passado e derrubar a frágil estrutura dessa família: os próprios filhos começam a questionar o modo de vida dos pais.