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“Pinturas cegas” de Tomie Ohtake fazem crítica social

Série de quadros pintados sem auxílio da visão testa novas possibilidades sensoriais

maio de 2011
Divulgação
Escotoma, ou ponto cego do olho, é uma região do campo visual onde não há células capazes de detectar a luz. Como o cérebro preenche essa lacuna com informações captadas pelo outro olho, ela normalmente não é percebida. No final dos anos 1950, a artista plástica Tomie Ohtake exaltou o ponto cego – numa crítica à modernidade excessivamente focada no visual, ela pintou uma série de quadros com os olhos vendados. As obras estão reunidas na exposição Pinturas cegas, em cartaz em São Paulo, na galeria que leva o nome da artista.
Nas telas, os sulcos na tinta feitos com o cabo do pincel – um traço da sequência de obras – remetem às marcas fincadas na retina que sobram como rastro da luz. “A venda, como a cegueira para Denis Diderot, ilumina o conhecimento sobre o olhar”, diz o curador da mostra, Paulo Herkenhoff, traçando um paralelo entre as pinturas de Tomie e as ideias do filósofo francês, autor do ensaio Carta sobre os cegos para uso dos que enxergam, que trata da sujeição do homem aos seus cinco sentidos e do relativismo do conhecimento humano.

Para arquitetar imagens no escuro, Tomie invoca sua memória óptica. O acaso e a intencionalidade surgem nesse processo de negação da visão. “O paradoxo a que nos submete a pintura de Ohtake é uma poética que se apresenta como experiência do não saber e da intuição”, diz Herkenhoff.