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A anarquia da luz

Documentário sobre vida e obra de Sebastião Salgado apresenta imagens exuberantes e fala sobre resgates mais sutis

julho de 2015
Gláucia Leal
DIVULGAÇÃO

As imagens de O sal da Terra são excepcionalmente belas. Mais que isso: contundentes, impressionantes, intensas. E tristes. Trata-se de uma beleza crua, na maioria das vezes entalhada em dor profunda, maciça. Quem já teve a oportunidade de ver as fotografias produzidas por Sebastião Salgado, atendo-se aos olhos dos personagens sofridos, quase sempre destacando-se de corpos esquálidos, dificilmente se esquecerá da imagem. Porém, se por um lado as cenas expostas na tela provocam desconforto, por outro prevalece o consolo falsamente protetor garantido pela distância entre espectador e imagem. O trabalho de Salgado se propõe a fazer essa ponte, aproximando mundos. No documentário, é mostrada de forma poética a saga do mineiro de Aimorés que, depois de já formado em economia, se encanta com a fotografia. Vivendo na Europa, casado e pai, renuncia a um promissor emprego burocrático em sua área de formação e sai pelo mundo retratando cenas fortes de violência, miséria e natureza exuberante.

Indicada ao Oscar de melhor documentário na edição 2015, a produção franco-ítalo-brasileira é dirigida pelo alemão Wim Wenders e pelo brasileiro Juliano R. Salgado (filho do fotógrafo) – mas não seria de estranhar se a direção fosse feita pelo próprio Salgado. O filme segue o modelo de seus trabalhos, e as cenas em preto e branco expõem a crueldade humana, num desfile de desgraças – fome, dor, abandono, exploração, exílio, desastres naturais. Difícil não fazer uma associação e pensar, ainda que de relance, na famosa foto feita por Kevin Carter, de 34 anos, mostrando um abutre perigosamente próximo de uma criança africana sozinha, devastada pela desnutrição, em seus últimos momentos de vida. Após ter recebido o prêmio Pulitzer – e inúmeras críticas por sua inércia diante do sofrimento do menino moribundo –, o fotógrafo cometeu suicídio.

Salgado parece compreender que seu papel não é fazer intervenções diretas, mas antes de tudo documentar a barbárie, mostrando para o mundo imagens deixadas no lastro de guerras e extermínios que raramente ganham espaço na mídia, já que envolvem povos miseráveis, em lugares de pouca projeção. Em dado momento do documentário, ele conta que algumas vezes precisou deixar a máquina fotográfica de lado para enxugar as lágrimas. Ainda assim, ele voltou várias vezes a cenários onde prevalecia o sofrimento humano, retratou corpos sem vida – talvez centenas deles. Viu crianças órfãs, vagando sozinhas, nômades expulsos de suas casas que, pouco depois de terem sido retratados, foram assassinados. Por anos a fio, a proximidade com o horror não foi suficiente para que se afastasse. Talvez, quem assiste ao filme em algum momento se pergunte como o fotógrafo conseguiu chegar tão perto do sofrimento alheio sem desmoronar emocionalmente.

Podemos pensar aqui no conceito de pulsão anarquista, proposto pela francesa Nathalie Zaltzman, partindo de uma derivação do conceito de pulsão de morte, de Sigmund Freud. A autora sugere que um acontecimento que poderia trazer profundos abalos psíquicos angaria forças nascidas da própria pulsão de morte para ultrapassar o risco. A psicanalista ressalta que o elemento mortífero não se restringe à agressividade, expressa na violência contra o outro ou contra si mesmo, mas pode ter destinos variados, às vezes contraditórios, e suas expressões poderiam ser criativamente úteis à manutenção da vida e da saúde mental.

O anarquismo proposto por Nathalie Zaltzman fala de uma faceta libertária e organizadora de um impulso silencioso e sem forma, que encontra saída na própria reinvenção. Seria possível pensar, porém, que, embora marcado pelo mortífero, o movimento que busca religações seja, na verdade, da ordem da vida – e não da morte. No caso específico de O sal da Terra, essa possibilidade de encontrar sentidos pode ser aplicada tanto à história do protagonista quanto à iniciativa de seu filho mais velho, Juliano, de aproximar-se do pai ausente de sua infância, já que em suas viagens Salgado se manteve longe dos dois filhos por longos períodos. O caçula, com síndrome de Down, aparece apenas de relance no documentário, em raras fotos antigas. A mulher, socióloga, passa a dedicar-se aos projetos do marido, ao planejamento de suas expedições, à edição de seus livros e organização de exposições. Juliano parece encontrar no documentário uma forma de resgate. “Quando começamos a filmar, eu e o Sebastião quase não nos falávamos. De repente, no final, éramos amigos”, conta. Mas quem o vê em uma das cenas, homem adulto, tentando atrair a atenção do pai, titubeante, mas empenhado em apresentar sua opinião, lutando ainda hoje para ser aceito – “Papai... papai...”, chama –, não terá dificuldade de imaginar as dificuldades que, quando menino, enfrentou enquanto o pai, “um estranho que de vez em quando voltava para casa”, desbravava terras desconhecidas.

Além disso, o último terço do documentário se detém justamente no resgate e no replantio de mata nativa no solo até então árido herdado por Sebastião Salgado. Em sua infância, havia árvores e nascentes no lugar, mas, após anos de criação de gado, o lugar encontrava-se completamente deteriorado. E, depois de correr o mundo, é para o lugar onde passou seus primeiros anos que volta. Não é difícil estabelecer aqui uma relação com a trajetória do fotógrafo, que “cresce” na profissão testemunhando as agruras vividas por tantos povos e, por fim, opta por dedicar-se ao projeto Gênesis, no qual registra animais e lugares recônditos onde a natureza permanece intocada. Chega bem perto da morte, mas opta pela vida.

O sal da Terra
1h50min – Brasil/ França/ Itália, 2014
Direção: Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado
Elenco: Sebastião Salgado, Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de julho de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1epW4DO

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