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A coragem do desejo feminino

Enquanto Schettino se acovardou e abandonou o navio, comandante Falco – que se tornou o herói da história – chorou em público e se identificou com as vítimas

março de 2012
© Gonçalo Viana
Quando o capitão do Costa Concordia, Francesco Schettino, abandonou o navio, mesmo contra uma ordem direta, o mundo se revoltou indignado com a covardia moral, técnica e com a acomodação, que podem ter causado mais mortes, além das que procederam de sua provável imperícia. O fato se agrava porque contraria também o código de honra que esperamos dos homens do mar. Por outro lado, o comandante Falco, que ordenou, veementemente, o retorno de Schettino ao navio foi elevado à condição de herói nacional na Itália. Se olharmos uma segunda vez para o episódio algumas perguntas podem ser colocadas. Afinal, por que concluímos que a atitude de Falco contém a coragem e a retidão que faltaram a Schettino? Ele não agiu apenas de maneira apropriada, eficaz e de acordo com seu cargo. Havia algo mais na responsabilidade que acompanhava seus atos e palavras, algo de que estamos precisando urgentemente.

Observemos como os sinais que tornam seu ato tão valoroso são também violações do código. Ele usa um palavrão (“Volte a bordo, cazzo”) quando se espera a devida sobriedade profissional, chora de raiva publicamente (ao saber do número de vítimas) – quando se espera que o código viril garanta contenção e serenidade. Falco usa linguagem irônica e pessoal (“Está escuro e você quer voltar para casa?”) quando o protocolo reza a habitual coação hierárquica administrada. Ele denuncia a mentira de Schettino (“Acabei caindo no bote”) onde outros teriam mantido cínico silêncio profissional. Ou seja: também viola códigos, mas no bom sentido, ao contrário do outro. O episódio nos faz perguntar de onde vem este tipo de coragem de que tanto precisamos. Há muito discurso sobre educação, consciência dos riscos, proteção ambiental e sustentabilidade. Mas será que de tanto nos preocuparmos com ameaças à segurança e à preservação da vida, cada vez mais complexa, não estamos esquecendo de perguntar como ensinamos alguém a se tornar corajoso? O problema é que as clássicas narrativas bélicas, os grandes romances em torno do crime, da honra e da aventura já não nos ajudam decisivamente a lidar com fenômenos como o dito naufrágio. São situações que dependem mais da capacidade de desobedecer do que da continência para agir em conformidade com aquilo que tem dominado nosso discurso moral cujos valores são sobrevivência, conforto e redução de riscos. Contudo, há ainda um grande discurso sobre a coragem do desejo, a coragem necessária para sermos consequentes e implicados com nossos sonhos e ideais, que não foi plenamente reconhecido.

Uma pista disso está nos sinais menos evidentes da attitude indignada do comandante Falco. Não creio que ele tenha sido admirado apenas por sua capacidade de “fazer o que é certo”, mas porque o fez, apesar de toda a virilidade, nos termos do que poderíamos chamar de coragem do desejo feminino (ou o que o ocidente cristão androcêntrico se habituou a reconhecer nos personagens femininos de nossas grandes narrativas). Coragem que deve ser retida fora do eixo da força em oposição à fragilidade. Vamos reescrever a cena deste ponto de vista: ele chora em público, descontrola-se verbalmente, seu envolvimento é pessoal, sua identificação com a fragilidade das vítimas e com a “verdade” da situação se impõe a todo o resto. É a coragem da verdade feminina contra, neste caso, a covardia masculina.