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Notícias

A dança das opiniões

janeiro de 2008
Agência USP
(Agência USP de Notícias) − Por meio de princípios de física e estatística, um pesquisador da USP tenta entender quais são os mecanismos que levam ao aparecimento de opiniões extremistas dentro da sociedade. O físico André Martins, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP Leste, desenvolveu um modelo exploratório que verifica as conseqüências da mudança de opinião das pessoas com base em novas informações recebidas, por exemplo, dos vizinhos.

O modelo foi testado em computador, e se baseia no Teorema de Bayes, um princípio básico de estatística. “Cada opinião individual é uma probabilidade associada a uma das idéias que estão em debate para ser a melhor opção”, explica Martins, professor do curso de Sistemas de Informação da EACH. "Essa probabilidade pode ser alterada por meio de métodos estatísticos conhecidos.”

Uma rede de vizinhança foi simulada para descobrir porque algumas opiniões mudavam e outras se tornavam fortemente arraigadas. “A idéia é observar o que regras simples de interação entre as pessoas geram em uma escala maior”, observa o físico, “do mesmo modo que a observação de fenômenos microscópicos, entre moléculas, por exemplo, pode ajudar a entender o que acontece em sistemas macroscópicos”.

Durante o estudo, conforme os vizinhos interagiam entre si, havia uma tendência a se formarem grupos com a mesma opinião. “Ao final, verificou-se que as pessoas acabavam se concentrando nos extremos”, conta o professor, “embora não seja possível prever em qual grupo a pessoa com determinada posição inicial irá se situar depois do processo de interação.”
Vizinhança
Segundo Martins, os caminhos que serão seguidos pela opinião também dependem do ponto em que a pessoa se encontra na sociedade. “Se você convive com pessoas que têm as mesmas opiniões, seu posicionamento é reforçado, mas ele pode mudar em contato com pontos de vista diferentes”, aponta. “Um novo estudo pretende mostrar de que forma a estrutura das redes de vizinhança pode colaborar para reduzir os extremismos”.

O professor lembra que os estudos de modelagem de dinâmica de opiniões surgiram entre físicos há cerca de 20 anos. “Uma das principais preocupações era descobrir os mecanismos que levavam ao surgimento de consensos, ou seja, o que fazia setores da população pensar da mesma forma”, diz.

“Hoje, a pesquisa nessa área também é um primeiro passo para se entender o que leva as pessoas a terem opiniões e comportamentos extremistas”, ressalta o físico. "No futuro, talvez seja possível identificar e ajudar a lidar com as situações que poderiam levar a problemas como brigas entre torcidas ou terrorismo."

O estudo de André Martins é descrito em um artigo que será publicado no International Journal of Modern Physics C (Computational Physics and Physical Computation).. O trabalho do físico também foi tema de uma matéria publicada na revista britânica New Scientist, no último mês de novembro.