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A diferença entre canabidiol, óleo de cânhamo e maconha inalada

As formas de administração da cannabis medicinal variam de acordo com a doença, o paciente e o efeito terapêutico buscado

agosto de 2014
Fernanda Teixeira Ribeiro
Justin Sullivan/Getty Images/AFP
Relatos de 2700 a.C. descrevem o cultivo e uso da Cannabis sativa, a maconha, como analgésico e ansiolítico na China. No final do século 19, cigarros da planta e extrato líquido eram vendidos em farmácia - indicados, por exemplo, para induzir ao sono e controlar a bronquite crônica. Depois de décadas de proibição da cannabise seus derivadosao longo do século 20, estados americanos e alguns países começaram a liberar o uso médico da planta.

Nesses locais, a prescrição médica é baseada no equilíbrio das proporções de dois fitocanabinoides (que são os componentes que interagem com o sistema endocanabinoide do cérebro) principais: tetrahidrocanabidiol (THC) e canabidiol (CBD). Ou seja, variedades padronizadas da planta são receitadas de acordo com a maior ou menor porcentagem desses canabinoides.

Na Holanda, por exemplo, a variedade Bediol (6% de THC e 7,5% de CBD), produzida de forma padronizada e distribuída em farmácias pela companhia Bedrocan, é indicada para alívio da dor e combate a processos inflamatórios. Seu uso não causa as alterações mentais características da maconha recreativa porque a proporção mais alta de CBD (que tem propriedades antipsicóticas e ansiolíticas) ameniza a ação do THC, responsável pelos efeitos psicoativos - confusão mental, euforia, fluidez de pensamentos e outras que variam de pessoa para pessoa. Assim, é possível se beneficiar das qualidades terapêuticas do CBD e do THC (componente que tem efeitos comprovados no controle de dores) sem sofrer alterações psíquicas como efeito colateral.

Nesse caso, a administração é feita por inalação, com o uso de um vaporizador, por exemplo. Como explica o neurocientista Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é possível usar a maconha como fitoterápico desde que se tenha conhecimento da proporção de canabinoides. “No caso da inalação com vaporizadores, é possível ter muito controle da dose. Os efeitos são imediatos e o médico pode administrar doses bem pequenas, medidas com precisão, até atingir o efeito desejado.”

Maconha ou cânhamo?

O termo “cânhamo” (em inglês hemp) refere-se ao caule da planta. Tem menos THC e mais CBD em comparação com as flores e folhas (as inflorescências, chamadas de maconha). Nos Estados Unidos, o óleo de cânhamo é considerado um suplemento alimentar pelo Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de alimentos e medicamentos, e é comercializado por algumas empresas no país. Mais recentemente, famílias brasileiras começaram a importar ilegalmente (ou depois de conseguir autorização específica da Anvisa para o seu caso) essa formulação por causa de sua alta proporção de canabidiol (cerca de 20%, contra menos de 1% de THC) –  que, além das propriedades já descritas, é um poderoso anticonvulsivante.

Por isso óleos de cannabis com altas quantidades de CBD têm tido resultados surpreendentes – ainda sem comprovação científica em laboratório – o controle de convulsões em crianças com epilepsias graves e difíceis de tratar com remédios disponíveis no mercado. Nesse caso, o óleo é pingado diretamente na boca algumas vezes ao dia. No Brasil, isto é feito sem prescrição médica, pois qualquer derivado da maconha é proibido. Os pais que estão tentando esse tratamento o fazem por conta e risco – recorrem aos suplementos, óbvio, por causa da gravidade da doença: há crianças que sofrem centenas de convulsões por dia, o risco de morte é real. Eles relatam melhoras evidentes no controle das convulsões e desenvolvimento das crianças. (Leia sobre esses casos na Mente e Cérebro no 259, Maconha: o que a neurociência tem a dizer)

O extrato de canabidiol purificado está em pesquisa clínica. Patenteado pela companhia GW Pharmaceuticals, possivelmente será registrado como medicamento e colocado no mercado, com o nome Epidiolex, em alguns anos. Logo, as formulações que estão sendo usadas atualmente para o tratamento de epilepsias não são canabidiol isolado, apesar de serem chamadas assim. São feitas de variedades de maconha ricas em canabidiol ou de partes específicas da planta com mais CBD. “Tem havido uma grande confusão sobre isso, porque os casos que estão vindo à tona não são de pessoas usando CBD. São de pessoas que usaram óleo total de uma variedade com alta concentração de CBD e baixa de THC”, diz o neurocientista Renato Malcher-Lopes, professor da Universidade de Brasília (UNB).

Os primeiros casos de tratamento de epilepsia em crianças com uma variedade cannabis rica em CBD ocorreram no estado no Colorado, nos Estados Unidos. A variedade, conhecida como Charlotte’s web, é resultante de cruzamentos genéticos feitos por produtores da planta. Desde então passou a ser receitada, em extrato, no estado, onde a cannabis é liberada. “Não há nenhum problema real nisto, apenas o desejo que alguns têm de fazer parecer que o valor medicinal depende da aprovação de intermediários, de indústrias ou de pessoas que possuem patentes sobre princípios e métodos de isolamento", diz Malcher-Lopes.

Vale lembrar que o uso medicinal seguro de cannabis depende da produção controlada de variedades da planta com proporções padronizadas de canabinoides. A extração obedece a procedimentos específicos – feita de modo incorreto, pode até alterar as propriedades da planta.  

É provável que a planta total (com seus vários componentes que interagem entre si) tenha efeitos terapêuticos mais eficazes que o uso de um único canabinoide isolado – o que alguns pesquisadores chamam de “efeito entourage”. De acordo com Sidarta Ribeiro, a maconha foi selecionada pelo ser humano através de inúmeras gerações para ser o que é hoje. “Uma mistura complexa de dezenas de canabinoides que isoladamente chegam até mesmo a ser perigosos para certas pessoas, mas misturados podem ser eficazes e sobretudo seguros.”

Saiba mais na Mente e Cérebro n. 259, Maconha: o que a neurociência tem a dizer. Nas bancas e na Loja Segmento.

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