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A dificuldade de ser “verde”

As pessoas reclamam da poluição, do trânsito, da destruição das matas; mas quanto de nossos hábitos estamos realmente dispostos a mudar para compartilhar uma vida mais saudável?

dezembro de 2009
Gláucia Leal
© sextoacto/Shutterstock
Preservação ambiental aparece no topo das prioridades sociais e políticas nas pesquisas de opinião em vários lugares do mundo. Principalmente agora, quando o assunto é discutido na Conferência de Copenhague (COP15). Mas o abismo entre realidade e boas intenções é enorme. Em geral, somos todos defensores da redução da poluição, mas infelizmente ainda são poucas as pessoas que reciclam pilhas em vez de jogá-las na lata de lixo ou abrem mão do conforto do carro particular por iniciativa própria, ainda que alguns dias por semana. É comum que os mesmos que reclamam da má qualidade do ar e do trânsito em cidades como São Paulo se indignem com o rodízio obrigatório de veículos e burlem a norma.

Por que palavras e ações se contradizem tanto? Pesquisadores que estudam esse tipo de comportamento afirmam que as únicas variáveis que contam para a maioria são tempo e dinheiro. Qual o preço máximo que as pessoas se disporiam, por exemplo, a pagar por um combustível menos poluente?
Felizmente, especialistas de uma nova disciplina, a psicologia ambiental, apontam outras influências que afetam de modo marcante nossas escolhas. Entender essa dinâmica pode estimular os cidadãos a adquirir consciência ecológica. A área de conhecimento, ainda pouco explorada, trata da interface entre fatores ambientais e comportamento. Envolve aspectos socioculturais, busca compreender a forma como nos relacionamos com o meio onde vivemos – influindo nele e recebendo suas influências. Esse campo recorre a estudos referentes à percepção, interpretação de mapas cognitivos e observação dos efeitos da estimulação do meio sobre o desempenho humano. E começa a ganhar espaço.

A personalidade é objeto de pesquisa do professor de psicologia ambiental Wesley Schultz, da Universidade do Estado da Califórnia. Ele estuda um traço surpreendentemente menosprezado: até que ponto nos sentimos parte do mundo natural. Schultz quantifica o apego à natureza com uma variante do conhecido teste de associação implícita. Um exercício feito em computador determina a intensidade com que a pessoa associa sua auto-imagem a uma idéia específica, como “árvores” ou “fábrica”.

Em pesquisa recente, Schultz descobriu que indivíduos que demonstravam ora apego à natureza ora distanciamento se comoviam ao visitar determinados lugares. Quando passavam o dia em caminhadas ou num parque tinham um sentimento mais profundo de união com o meio ambiente do que se tivessem passado a jornada na biblioteca ou na academia de ginástica. A conclusão do professor é que esse sentimento não é característica imutável de personalidade. Segundo a pesquisa, seria muito mais fácil convencer as pessoas a preservar a Natureza se tivessem contato direto com ela – eis a força que impulsiona e faz prosperar o ecoturismo.

O comportamento ecologicamente correto requer a superação de um bom número de hábitos, incluindo ações executadas no “piloto automático”. É aí que entra a importância não apenas da informação, mas também do amadurecimento emocional, capaz de nos fazer compreender que certas atitudes não devem ser tomadas simplesmente porque tememos represálias, como multas – mas principalmente porque somos co-responsáveis pelo mundo em que vivemos.

Atitudes simples – como procurar um cesto de reciclagem para colocar uma lata vazia de refrigerante em vez de simplesmente atirá-la no lixo, apagar a luz ao sair de uma sala, tomar banhos mais curtos, fechar a torneira enquanto se escova os dentes ou levar uma sacola ao supermercado e evitar o uso de saquinhos plásticos – também exigem certo grau de reflexão até que serem interiorizadas.

A propósito, o plástico com o qual são feitas as sacolas de supermercado, por exemplo, leva séculos para se decompor na natureza. Estima-se que cada brasileiro utilize 45 kg de embalagens desse material ao ano – e muito pouco do total é reutilizado ou reciclado. Grande parte acaba nas ruas, entupindo bueiros e causando alagamentos. E a reciclagem nem sempre é a solução porque causa emissão de gases poluentes. Mas ainda assim é melhor reciclar do que jogar embalagens no meio ambiente misturando-as ao lixo orgânico. Uma das saídas é o plástico biodegradável, mas sua utilização ainda é uma opção cara e corresponde a apenas 1% do mercado.

Enquanto seu uso não se populariza, uma solução é usar embalagens de tecido. Certamente, a maioria das pessoas garante que quer viver em um mundo mais saudável, com águas limpas, áreas verdes preservadas, animais livres do perigo da extinção. Mas o ser humano é uma criatura de hábitos. E quanto de fato estamos dispostos a nos empenhar a mudar nossos hábitos em prol de um mundo melhor?