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A fera e sua dor

Na trama, rapaz vive à mercê de 24 personalidades que se alternam; desintegração funciona como proteção contra a crueldade vivida na infância

junho de 2017
Ana Luisa Cordeiro
DIVULGAÇÃO

O impactante thriller Fragmentado, do polêmico diretor M. Night Shyamalan, conduz o espectador ao surpreendente mundo do transtorno dissociativo de identidade (TDI), ou transtorno de personalidades múltiplas. O filme conta a história de Kevin, um rapaz com 23 personalidades bem diferentes umas das outras, que se alternam. A cada momento, apenas uma se apresenta e fica “na luz”. 

Seria possível apenas descrever em detalhes essas 23 personalidades e a vigésima quarta – que está se formando ao longo da história –, seu funcionamento, aspectos e estruturas. E isso, por si só, já seria fascinante. É possível levantar hipóteses sobre o surgimento de cada uma dessas faces do personagem, e considerar as ligações que as sustentam. Representariam diferentes aspectos não integrados de Kevin? O próprio nome original do filme em inglês, Split, significa “cisão”, “divisão” – e o nome “dissociativo” para nos referirmos ao transtorno já demonstra que, ao assumir o comando, cada personalidade, tem existência separada, com características próprias, como se fossem, de fato, pessoas diferentes habitando o mesmo corpo que, inclusive, se transforma ao ser “moldado” por cada uma delas.

O que teria acontecido que não foi possível para o rapaz “ocupar” o próprio corpo, tomando posse dele e unificasse suas características num todo? 

Recorrendo às ideias do psicanalista inglês Donald Winnicott sobre o desenvolvimento emocional primitivo, levamos em conta que para o Self se estabelecer como uma unidade é necessário que ocorram três coisas muito importantes: a integração, a personalização e a realização. Em relação aos dois primeiros processos, partimos da ideia de que o eu habita um espaço físico, o próprio corpo. No início de nossa existência, nossos diversos aspectos e potencialidades não estão ainda integrados e necessitam da mãe (ou de quem cuida do bebê) e de um ambiente suficientemente bom para que haja a integração.

Isso pressupõe a importância dos cuidados com o bebê, assim como o holding, que implica na forma como este bebê é segurado, carregado, sustentado, e todas as vivências e experiências de acolhimento, paz, segurança, confiança que ele deverá ter na relação com a mãe que se mescla e confunde com o próprio ambiente.

Para que ocorra o desenvolvimento também se faz necessária a personalização, que é justamente o sentimento de habitar o próprio corpo, estar dentro dele, tomar posse – e depende das mesmas experiências já descritas. Esses processos ocorrem simultaneamente no início da vida. Mas o que pode ter ocorrido com Kevin? Ou melhor: o que não ocorreu com ele?

Não temos muitos dados sobre sua relação inicial com a mãe, mas uma cena do filme mostra uma memória de infância, em que, apavorado, ele se esconde de sua mãe embaixo da cama, quando esta o persegue para castigá-lo com um ferro porque ele havia “feito bagunça”. O olhar e o comportamento da mãe nessa cena são assustadores, principalmente sob o ponto de vista de uma criança pequena. Com base nisso, podemos levantar a hipótese de que Kevin não viveu em um ambiente suficientemente bom, acolhedor, calmo, seguro. Em vez disso, sofreu hostilidade e agressividade que causaram traumas. 

A consequência foi ter seu processo de integração interrompido, prejudicado, ou nunca alcançado de fato. Em decorrência disso, a personalização também não ocorreu. Kevin não pode viver seu corpo como uma unidade e isso o impediu de “tomar posse” dele de forma unificada e de habitá-lo verdadeiramente. Ainda segundo Winnicott, o bebê que não teve uma pessoa que “juntasse seus pedaços” inicia sua vida já com desvantagem para “autointegrar-se”. 

No caso de Kevin, isso pode ter sido ainda mais agravado pelas vivências de abuso e agressividade a que foi exposto desde pequeno. É possível, então, que suas 23 personalidades se constituíram com o objetivo de ocupar o corpo, esse lugar não habitado, a fim de preencher o vazio aterrorizante experienciado por um sujeito muito frágil e indefeso. A vigésima quarta personalidade, chamada de Fera, também tem o propósito de proteger o rapaz e fazê-lo reagir contra o ambiente assustador que o cerca. É o mais agressivo, poderoso e descontrolado de todos os aspectos e acaba transformando Kevin em um assassino em série. 

Nada detém sua fúria, a não ser quando enfrenta uma de suas vítimas que, assim como ele, visivelmente, viveu experiências de abuso desde a infância, que podem ser reconhecidas por meio das marcas em seu corpo. Nesse momento, o assassino se identifica com a dor de sua presa, a reconhece como “diferente de todos”. E parecida consigo mesmo.

ANA LUISA CORDEIRO é psicóloga, professora do curso de especialização em psicossomática psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae e membro do Espaço Potencial Winnicott, da mesma instituição.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de junho de Mente e Cérebro, disponível em: 

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