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A força do pensamento contra a sedução do chocolate

Contar apenas com determinação para fugir da sedução da primeira mordida nem sempre é eficaz. Felizmente, outras possibilidade vêm sendo estudadas

abril de 2014
Shutterstock

A música Imagine é um dos maiores sucessos de John Lennon. You may say, I am a dreamer. But I’m not the only one (“Você pode dizer que eu sou um sonhador. Mas não sou o único”), diz a letra, acompanhada pela melodia melancólica e lenta que remete à ideia de um mundo feliz. Quem sabe, talvez os cientistas da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, Pensilvânia, também tenham pensado nessa música quando desenvolveram seu estudo. Mas com uma diferença: os participantes do experimento não deviam pensar em um mundo melhor, mas em chocolates – o que, para muita gente, é bem parecido. Os cientistas Carey Morewedge, Young Eun Huh e Joachim Vosgerau queriam saber se uma pessoa pode “se saciar por meio do pensamento” e para isso desenvolveram uma série de testes. A proposta era avaliar o que acontece após a fase da “água na boca”, caso a pessoa pense constantemente em um alimento específico. Será que ela vai ficar com mais vontade ou será que, em algum momento, terá menos vontade?

Para desvendar esse mistério, foi pedido aos participantes do estudo que se imaginassem comendo os confeitos de amendoim recobertos de chocolate 33 vezes seguidas. Já os voluntários do grupo de controle deveriam, também apenas em pensamento, colocar uma moeda em uma lava-roupas automática 33 vezes. Dificilmente poderíamos pensar em algo mais monótono – ainda por cima tantas vezes seguidas. Depois, foi oferecida aos dois grupos uma tigela real com M&Ms da qual podiam comer o quanto quisessem. O resultado, publicado pela Science, foi curioso: quem já havia colocado o chocolate 33 vezes na boca em pensamento comeu em média apenas a metade do que as pessoas do grupo da lavadora imaginária.

Numa época em que tanta gente anseia emagrecer, uma pergunta parece inevitável: será que é suficiente se ocupar da comida apenas mentalmente? Em outro experimento, os participantes deviam se imaginar passando as bolinhas de chocolate de uma tigela para outra. O simples “manuseio mental” aumentou o desejo pela comida de verdade. Assim que a tigela verdadeira foi oferecida, o grupo a atacou.

O mesmo efeito ocorreu com cubinhos de queijo. Quem já havia engolido 33 cubinhos em pensamento teve menos vontade de degustar o alimento em seguida. No entanto, quando foi oferecido chocolate ao “grupo do queijo” ficou evidente que a saciedade não era transferível: a vontade de comer o doce não diminuiu. Da mesma maneira, comer chocolate na imaginação não fez com que os voluntários comessem menos queijo. Portanto, a pessoa não fica realmente saciada com o exercício mental, apenas se torna menos interessada na comida real, como se estivesse mais satisfeita.

Utilizar o pensamento nesse tipo de experimento é inovador: em vez de nos proibirmos de alguma coisa, nós a imaginamos tantas vezes até que a atração desapareça. A iniciativa parte da ideia de que nos acostumamos a tudo. Este fenômeno, chamado de habituação, foi descoberto primeiro na lesma-do-mar Aplysia. Se a cutucamos, ela se encolhe. Depois de um tempo, volta a sair da casca. Se a tocamos de novo, ela se contrai outra vez, mas já de forma menos enérgica. E se repetimos o gesto 33 vezes ela passa a não se importar mais com o estímulo.

Podemos pensar que habituação resulte de aprender a cair na monotonia. Esse fenômeno desempenha importante papel para os seres humanos, principalmente nos hábitos alimentares. Basta observar o desânimo com que pessoas institucionalizadas levam a comida à boca, comendo apenas o suficiente para ficar saciadas. “Diversificação” é a palavra mágica para que o alimento dê prazer. O corpo indica a fome de forma muito diferente da saciedade, o que faz sentido em termos evolucionários. Antigamente, era decisivo para a sobrevivência buscar algo para comer. Hoje, porém, é decisivo para a sobrevivência que possamos guardar a comida. Por isso essa ideia de nos enganarmos com os recursos de nosso próprio cérebro é tão interessante.

Se pesquisadores que investigam como o pensamento favorece a saciedade tiverem razão, então talvez possamos jogar fora todos os livros de dietas. A ideia passaria a ser ler livros de receitas, de preferência com muitas imagens. Mas não folheie, só olhe a mesma página 33 vezes todos os dias! Em seguida, imagine-se em detalhes preparando tudo, até a comida derreter em sua boca muitas vezes. Isso o fará perder a vontade de comer aquele prato. Pelo menos teoricamente.

Muitos profissionais da saúde consideram que não é o que comemos que nos engorda, mas como comemos! Há pessoas que emagrecem sob estresse, mas a grande maioria engorda. Quem lida a maior parte do tempo com sentimentos de culpa, portanto, não está se ajudando, pelo contrário. A solução é buscar o prazer na comida, tentar descobrir o que faz bem ao corpo, independentemente de dietas e ideologias. Relaxar, portanto, pode ajudar mais a silhueta que apelar para salada e queijo cottage.

Efeito colateral

Por outro lado, ao analisar o experimento, não emagrecemos simplesmente pelo pensamento: o banquete mental tem um efeito colateral. A vontade de comer alimentos que combinam com o alimento imaginado não é refreada, mas aumenta! Quem pensou em cubinhos de queijo realmente comeu menos queijo depois, mas, em compensação, devorou mais pão. O tédio alimentar só ocorria com alimentos específicos e não era transferível para outros. Pelo contrário: os participantes do experimento avançavam até com mais veemência sobre alimentos alternativos.

Isso lembra uma velha máxima: não existe comida de graça – as pessoas sempre pagam por a ela, ainda que de forma indireta. E por mais atraente que essa ideia da dieta por pensamento pareça, não escapamos assim tão facilmente dos programas do sistema de recompensa de nosso cérebro. Nossas possibilidades de contrapor a força de vontade à sedução de doces e carboidratos são extremamente limitadas. Como lembra o psicólogo Roy Baumeister, a determinação tampouco é um músculo que se torna melhor a cada exercício. Ela é, na verdade, um recurso finito ao qual só podemos recorrer uma vez a cada impulso de realizar um esforço.

Se por qualquer motivo a vontade estiver enfraquecida, as grandes tentações ganham grande vantagem. Em minha experiência, o melhor caminho para não comermos salgadinhos à noite é não comprá-los durante o dia, pois por maior que seja a atração, se não tenho nenhum pacote em casa será mais fácil não sentir falta dele. E mesmo quando ficamos com vontade de comer junkfood, por sorte, na maioria das vezes, a preguiça nos impede de sair de casa para comprar guloseimas e frituras. Esse talvez seja um bom exemplo de como podemos combater nossas fraquezas com outras.