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A fronteira entre o normal e o patológico

Livro aborda riscos e vantagens da medicalização e sentidos do sofrimento psíquico

março de 2015
Gláucia Leal
SHUTTERSTOCK

“Não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural. A razão para isso é muito simples: não sabemos o que é o universo”, escreveu Jorge Luis Borges em seu conto O idioma analítico de John Wilkins. Na introdução do recém-lançado A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea, o psiquiatra e psicanalista Benilton Bezerra Jr. resgata o conto de Borges, já citado por Michel Foucault em As palavras e as coisas, para falar sobre classificações (mais especificamente de transtornos mentais), como recursos que organizam a realidade – mas também, inevitavelmente, a restringem.

Em suas reflexões, Bezerra Jr. lembra que o escritor argentino recorre a uma curiosa enciclopédia de existência bastante duvidosa, apresentada como Empório celestial de conhecimentos benévolos. Na obra monumental estaria a classificação de todos os animais, divididos em 14 categorias, entre elas a dos bichos pertencentes ao imperador; dos embalsamados; dos amestrados; dos leões; das sereias; dos animais fabulosos; dos cães soltos; dos que se agitam como loucos; dos desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo; dos que de longe parecem moscas.

Embora possa parecer absurda ao leitor, a lista cumpre sua função de abranger a totalidade de bichos, tanto os comprovadamente existentes quanto os imaginários. Mas é importante lembrar: “Classificações não são o espelho da realidade, mas construções, arranjos que configuram um domínio da realidade, sistematizando sua multiplicidade de maneira inteligível”, assinala Bezerra Jr., um dos organizadores do livro, juntamente com os psicanalistas Rafaela Zorzanelli e Jurandir Freire Costa.

O psiquiatra salienta que, como todo mapa, essa sistematização opera com base na redução da paisagem mapeada, o que implica priorizações, inclusões, exclusões, destaques e privilégios que ficam a critério dos autores, de acordo com as circunstâncias da criação do mapa. Inevitável, portanto, que surjam ponderações, críticas e discussões não só sobre o “mapeamento” em si, mas também a respeito de suas implicações políticas e culturais, que terminam por incidir sobre a vida dos indivíduos. E com a quinta versão do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM, na sigla em inglês) não poderia ser diferente.

Nesse sentido, A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea reúne textos desenvolvidos a partir de conferências e mesas-redondas ocorridas no evento “Debates em torno do DSM-5: Transtorno mental, psiquiatria e sociedade”. O encontro, organizado pelo Programa de Estudos e Pesquisas da Ação e do Sujeito (Pepas), do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), propôs o debate sobre fronteiras entre o que é considerado normal e patológico, sob a luz de olhares socioculturais e epistemológicos, levando em conta nomeações do mal-estar, sentidos do sofrimento psíquico, limitações e quesitos considerados na definição de saúde e doença, bem como vantagens e riscos da medicalização. Além de artigos dos organizadores, o livro traz textos dos psicanalistas Christian Ingo Lenz Dunker, Ana Maria Rocha, Ana Elizabeth Cavalcanti, entre outros.

A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea
Benilton Bezerra Jr, Jurandir Freire Costa e Rafaela Zorzanelli (orgs.).
Garamond, 2015. 276 págs. R$ 54,00.

Esta resenha foi originalmente publicada na edição de março da Mente e Cérebro, que pode ser adquirida na Loja Segmento: http://bit.ly/184InXR

 

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