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A importância de reconhecer indícios de irritação

Pessoas que têm dificuldades com a identificação da raiva também costumam ter problemas para se controlar

maio de 2015
Gláucia Leal
SHUTTERSTOCK

Na década de 70, o psicólogo americano Paul Ekman demonstrou que o reconhecimento de uma expressão de raiva ou agressividade não depende da idade do indivíduo ou da cultura à qual pertence. Essa capacidade comum entre mamíferos funciona, na verdade, como uma estratégia de sobrevivência, determinando se é hora de se proteger ou fugir. Os estudos sobre expressões faciais de Ekman chegaram a ser usados como base para a série de TV Lie to me.

O pesquisador listou sinais da raiva escancarada no rosto, como sobrancelhas unidas, olhar fixo, lábios comprimidos, na tentativa de conter a ira, ou boca aberta, exibindo os dentes, como se quisesse “morder” o outro. A postura também se altera em momentos de irritação: é comum que a pessoa assuma, mesmo sem se dar conta conscientemente, uma posição de desafio, inclinando-se para a frente; tende a elevar a voz, e as palavras podem tanto “escapar” sem filtros quanto ser abafadas por murmúrios e lágrimas. Não raro, a face torna-se avermelhada, as narinas se dilatam e a respiração fica ofegante. A pessoa “prepara-se para a luta”, levanta a cabeça e procura encarar o adversário de cima para baixo, se mantém ereta, enche o peito e se ergue na ponta dos pés, como se momentaneamente aumentasse de tamanho para intimidar o adversário.

Não ser capaz de reconhecer indícios de irritação no rosto alheio pode ser sinal de problemas, inclusive para dar conta das próprias reações. Pessoas que têm dificuldades com essa identificação também costumam ter dificuldade para controlar a raiva. O que está por trás dessas duas características pode ser uma forma leve de disfunção cerebral. Estudos sugerem que, em alguns casos, a propensão a explosões de agressividade está ligada a problemas no córtex pré-frontal, uma área “nobre” do cérebro responsável, entre outras coisas, por controle de impulsos, processamento das emoções, julgamentos e escolhas. Os diagnósticos psiquiátricos desse quadro, chamado por alguns especialistas de transtorno explosivo intermitente (IED, na sigla em inglês), no entanto, são bastante raros.

“A patologia costuma aparecer na adolescência e a maioria dos casos, provavelmente, não são diagnosticados”, diz a pesquisadora Mary Best, do Hospital Infantil da Filadélfia. Ela e seus colegas acompanharam 24 pacientes com IED e os compararam com outros 22 voluntários do grupo de controle. Todos fizeram vários testes e participaram de jogos destinados a avaliar o funcionamento do circuito de córtex pré-frontal orbital e medial. Os resultados mostraram que as pessoas que têm dificuldade de se controlar em situações frustrantes também costumam fazer escolhas associadas a um elevado risco de punição. Ou seja: recorrem à agressão como estratégia de resolução de problemas, mesmo que haja possibilidade de sofrerem consequências graves, como lesões e até prisão.

“Esses pacientes têm pouco sucesso no julgamento e na identificação de expressões faciais, especialmente raiva e desgosto, e tendem a vincular faces neutras a emoções negativas”, afirma a pesquisadora. Ela acredita que, nessas situações, seja importante desenvolver um trabalho para que essas pessoas aprendam a julgar expressões faciais de forma mais precisa, ou pelo menos possam reconhecer o efeito que as explosões de raiva provocam em sua vida. A causa subjacente da disfunção do córtex pré-frontal orbital e medial não é conhecida, mas pesquisas anteriores mostraram que alguns pacientes com IED respondem ao tratamento com inibidores seletivos da recaptação da serotonina, mais comumente usado para casos de depressão.

Leia o texto completo: "Formas mais inteligentes de lidar com a raiva", capa da edição de maio de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento:http://bit.ly/1DKrwmD

 

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