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A incerteza do golfinho

Testes criativos ajudam a investigar se outras criaturas refletem sobre suas próprias ideias e se são capazes de alguma forma de metacognição

novembro de 2014
Stephen M. Fleming
Dennis W. Donohue/Shutterstock
A metacognição é exclusiva dos seres humanos? Não podemos pedir aos animais que respondam verbalmente sobre o seu próprio comportamento, mas testes criativos ajudam a investigar se outras criaturas refletem sobre suas próprias ideias.

Em um estudo pioneiro, o psicólogo David Smith, da Universidade de Buffalo, treinou um golfinho chamado Natua para nadar em direção a uma de duas alavancas assim que ouvia um som: agudo para uma e grave para outra. Quando respondia corretamente, ganhava um peixe. Mas alguns barulhos eram mais difíceis de distinguir. Então, Smith introduziu uma terceira barra, o que facilitou o julgamento e, consequentemente, a recompensa. O golfinho aprendeu a pressioná-la somente nos testes mais complexos.

O psicólogo acredita que para escolher a terceira alavanca o animal precisaria reconhecer sua própria falta de conhecimento, portanto, deveria ter a capacidade de refletir sobre o que sabia. Outros dados reforçam a hipótese: quanto mais tempo o golfinho hesitava ou oscilava entre as duas opções, maior era a probabilidade de optar pela terceira barra. Assim, suas decisões pareciam se basear em sentimentos genuínos de incerteza.

Experimentos posteriores demonstram que alguns primatas também apresentam comportamentos metacognitivos semelhantes. Outro teste simula no laboratório a graduação de confiança de humanos. Como no experimento com o golfinho, um animal escolhe a que acredita ser a melhor entre duas possibilidades. Em seguida, o bicho tem a oportunidade de se comprometer com sua decisão ou escolher uma alternativa segura e que lhe proporciona um pequeno lanche. Manter a primeira opção pode ser mais arriscado: se acertar ganha mais comida; se errar não recebe nada.

Macacos tiram o desafio de letra: permanecem na aposta mais arriscada quando há maiores chances de que seja correta. A atividade dos neurônios no córtex frontal dos símios também rastreia sua confiança, o que permite compreender melhor os mecanismos neurais da metacognição. Até mesmo ratos podem aprender como funciona uma versão desse teste. No entanto, essas evidências não são suficientes para concluirmos que os animais têm metacognição.

O córtex pré-frontal anterior, uma área cerebral chave para a metacognição humana, é maior no homem do que em macacos, e nem sequer existe em camundongos. Essa diferença anatômica não necessariamente elimina a possibilidade de que roedores tenham essa habilidade, que pode ter evoluído de diversas formas. Ela pode se manifestar tanto como um sentimento implícito de incerteza, que os animais compartilham conosco, como o autoconhecimento consciente, que pode ser exclusividade dos humanos.

Mesmo alguns computadores podem apresentar uma forma de metacognição. Em 2011, para vencer os dois campeões no jogo americano de perguntas e respostas, Jeopardy, a máquina de inteligência artificial da IBM, Watson, tinha como base uma habilidade muito semelhante ao autoconhecimento humano. O supercomputador não só dava respostas, mas classificava o grau de certeza para cada afirmação. Então, usava os resultados para decidir se apertava a campainha. Ou seja, Watson concluía o que sabia (de acordo com cálculos e estimativas) mais rapidamente do que os participantes humanos, o que deu à máquina da IBM a vantagem de que precisava para vencer.

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