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A língua e suas salivas

A psicanálise trabalha com o equívoco, com o intervalo entre uma palavra dita e a sua reedição; é possível evocarmos o que Lacan ensinou: entre um significante e outro, revela-se o sujeito de modo fugidio 

agosto de 2017
SHUTTERSTOCK

As línguas são comparáveis a tecidos, cujos fios o bicho-da-seda produz, ou às teias que as aranhas tecem de tanto salivar. A língua viva depende de seus falantes – que registram, escrevem. Falar, ler, escrever, escutar. Em “Uma rosa é uma rosa é uma rosa...”, a poeta Gertrude Stein nos direciona na leitura e releitura de uma palavra que, ao ser repetida, se altera. E na última pronúncia de “uma rosa”, mesmo que as palavras sejam lidas silenciosamente, aquela imagem acústica que criamos dentro de nós já vai se tornando carregada de algum outro sentido que não o primeiro, o original, digamos assim. Parecendo uma árvore carregada de laranjas. Se víssemos o detalhe, o zoom da primeira laranja, logo mais uma e mais uma... Por fim, em zoom out, nos seria revelada uma complexidade de frutas penduradas em galhos presos a um tronco comum: a laranjeira.    

Mais ou menos assim transmitimos por palavras o que vamos percebendo e as palavras nos fazem perceber. A psicanálise – principalmente na volta a Sigmund Freud empreendida por Jacques Lacan – trabalha com o equívoco, com o intervalo entre uma palavra dita e a sua reedi(c)ção. Seguindo os preceitos da linguística, talvez compreendamos melhor se evocarmos o que Lacan ensinou: entre um significante e outro, revela-se o sujeito de modo fugidio. 

Traduzir um texto de Freud é uma operação que se realiza a partir da ideia do equívoco, da incompletude das línguas, da não equivalência entre elas. As traduções são fronteiras entre o (im)possível. Freud tanto narra quanto disserta. Narrações são marcadas pelo contar de ações via instâncias narrativas. Um narrador (ou mais de um) conta a um outro (narratário) uma sequência de ações. Narrar difere assim do teatro, porque interpõe entre o público e a ação essas instâncias transparentes que amaciam, tranquilizam o susto, a surpresa e o terror. As histórias do mundo da fantasia, do “era uma vez”, são contadas a crianças por alguém, um contador, no tempo verbal adequado do “era”, distanciando aquele que ouve daquele que age
(a personagem). 

Além disso, a voz orienta os percursos da imaginação. Assim, evita-se a maior emoção do palco, aquela que produz a catarse. Freud narra, por exemplo, o cumprimento dos obsessivos, o tirar o chapéu, e conclui com frases que são de tirar o chapéu mesmo. Essas abstrações costumam ser dissertadas. Dissertar é aquele jeito de escrever argumentando, que alguns leigos chamam de teorizar. Na dissertação, desenvolve-se uma série de pensamentos, que aprendemos na escola que devem ser de preferência concatenados, coerentes e coesos. Dominando a organização narrativa e a dissertativa e através desses modos de escrever, Freud vai apresentando ao leitor os lapsos dessas e nessas organizações e as relações entre linguagens distintas como a dos sonhos e a de seus relatos.     

A riqueza do Freud escritor também se dá no fato de tanto ser direto e claro nas palavras (mesmo nos neologismos) quanto de oferecer a sensação de montanha-russa ao escorregarmos por suas deliciosas frases quilométricas, repletas de vírgulas e novas orações. O leitor só sabe que pôs os pés no chão no ponto final. Nesse momento, o coração pulsa e a criança diz: de novo! E então relê, reedita a frase do começo, pois o verbo alemão pontua o fim da frase que se recomeça no sentido. Como se nada disso fosse suficiente, há ainda nos textos de Freud, frequentemente, a sensação de terceira dimensão temporal, tantos são os variados tempos dos verbos que apontam para um tempo modalizado, um possível, um que de fato aconteceu etc. 

Essa complexidade do texto original coloca o tradutor diante de alternativas e o resultado é, no melhor sentido, uma versão possível de uma série de versões. Aquela versão que ele, humano e limitado, encontra depois de passar pelo crivo da fórmula inexata: o que esse conceito que me fala de sensações táteis ou imagéticas em alemão pode ter querido dizer há cem anos e como ele foi dito em português por este e por aquele tradutor. E depois de substituir com cuidado uma palavrinha composta alemã por outra(s) tanta(s) pesquisadas nas memórias, em dicionários, carregados de palavras penduradas em seus verbetes... E então se lembra de um texto literário que surpreende com uma palavra em frase que se renova. Essas são algumas das tantas possibilidades que encantam o processo investigativo da tradução e que, também, acalmam a angústia do impossível: a tradução perfeita, ideal, das línguas que fazem UM. As línguas e linguagens não fazem uma unidade, uma completude. As línguas e seus lapsos, as brechas e os furos, buracos negros de significados e o sem sentido e o para além do senso... Assim, de equívoco em equívoco, desloca-se a palavra. Daí que as línguas não se encaixam, as línguas não se beijam. As línguas...

IDIOMAS E SONHOS

Se este texto fosse um vídeo na timeline do Facebook, o roteiro seria assim: dicionários apareceriam como caixas, onde todas as palavras se encontrariam e de onde elas sairiam com suas saias leves e dançantes e  lembrariam cobras encantadas rumo ao céu daquele cesto de palha do encantador de serpentes. Nessa dança formariam sintaxes, estruturas; o cipó onde, se fosse um sonho, os macaquinhos-prego se pendurariam. Cada macaco no seu galho. Cada macaco, uma palavra materna. Das nossas falas transcontinentais da língua portuguesa a suas escritas e ainda outras escritas em idiomas estranhos, essa caixa conteria o universo das palavras (das nossas falas transcontinentais da língua portuguesa a suas escritas e ainda outras escritas em idiomas estranhos). Repetidas vezes... E a cada vez uma frase nova ou seminova se ergueria no mercado medieval e mediador das línguas.   

A AUTORA Elizabeth Brose é psicanalista, pós-doutoranda em psicologia clínica no Instituto de Psicologia da USP. Atualmente traduz do alemão o texto de Freud Psicopatologia da vida cotidiana para a editora Autêntica.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de agosto de Mente e Cérebro, disponível em: ImpressaAndroidIOS e WEB

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