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A maconha prejudica o cérebro?

Estudos recentes apontam diferenças no cérebro de quem consome a erva, mas não garantem que essas alterações tenham relevância funcional

agosto de 2014
Victoria Stern
Mikeledray/Shutterstock
Pesquisadores da Universidade Northwestern e Escola Médica Harvard submeteram 20 jovens entre 18 e 25 anos, divididos em dois grupos, a exames de ressonância magnética. O primeiro relatou consumir maconha pelo menos uma vez por semana – em média, 11 cigarros nesse período. O segundo disse ter usado a erva menos de cinco vezes na vida e não haver fumado nenhuma quantidade no ano anterior. Psiquiatras avaliaram todos os voluntários e não encontraram sinais de distúrbios mentais.

Os cientistas examinaram duas estruturas do cérebro dos participantes envolvidas no processamento da recompensa, o núcleo accumbens e a amígdala. Essas áreas criam experiências agradáveis relacionadas à comida, ao sexo e às drogas: animais que receberam doses de THC, principal componente psicoativo da cannabis, demonstraram alterações nessas regiões cerebrais.

Os pesquisadores observaram maior densidade de massa cinzenta no núcleo accumbens esquerdo e na amígdala esquerda dos que consumiam maconha com maior frequência, além de alterações no formato da amígdala direita e do núcleo accumbens esquerdo (essa região tende a ser um pouco maior em pessoas que usam a erva). Conclusão: o consumo recreativo de cannabis pode estar associado a alterações no sistema de recompensa. Diversos artigos apontam que mesmo o uso casual da droga pode prejudicar o cérebro de pessoas jovens.

Ressalvas

O problema mais óbvio com essa conclusão: os cientistas analisaram os exames de neuroimagem considerando apenas um ponto da questão. Embora o estudo tenha comparado os grupos, nada prova que a maconha tenha causado as alterações ou que ela vá provocar algum sintoma com o tempo. Talvez essas variações já existam. Ou, ainda, o uso de cannabis e as mudanças cerebrais pudessem estar relacionados a um terceiro fator, como o consumo de tabaco (embora o estudo tenha tentado considerar essa variável).

No entanto, é plausível considerar que as diferenças foram resultado do uso da erva. Por definição, substâncias psicoativas provocam alterações cerebrais. Drogas recreativas, como a maconha, estimulam o sistema de recompensa, que manda sinais ao núcleo accumbens para liberar dopamina e gerar uma experiência de prazer, o principal motivo de consumo. O aumento da atividade desse neurotransmissor causa mudanças sutis no cérebro – a verdade, porém, é que mesmo a emoção de jogar na loteria pode provocar alterações similares. “É provável que essas transformações sejam adaptativas e desapareçam com a interrupção do consumo”, argumenta o psiquiatra Robin Murray, do King’s College de Londres.

E mais importante: os cientistas não mediram o desempenho cognitivo nem encontraram ligação entre os dados e ocorrência de dificuldades mentais. Portanto, a associação dos resultados com a conclusão de “danos” é arbitrária. “As alterações não foram, de fato, relacionadas a nenhum problema”, aponta o psicólogo Tom Freeman, da Universidade College London. “São necessárias mais evidências para concluir que as diferenças são prejudiciais”.

Dados comprovados

O consumo de cannabis pode:

1) causar dependência, em algum momento da vida, em aproximadamente 9% das pessoas que a experimentam;

2) prejudicar vários aspectos das funções cognitivas, principalmente a memória. Os danos podem durar por vários dias (não há consenso sobre quanto tempo exatamente). Um estudo mostra que o desempenho volta ao habitual após 28 dias de abstinência; 

3) reduzir o volume do hipocampo, imprescindível para a memória, mas apenas em casos de consumo intenso e prolongado. Evidências que associam prejuízos cognitivos a mudanças específicas no cérebro são inconclusivas. Ainda não se sabe com certeza até que ponto essas alterações são reversíveis.

A maconha pode desencadear psicose?

Muitos estudos mostram que adolescentes que usam a erva enfrentam maior risco de desenvolver esquizofrenia de início tardio ou alguns de seus sintomas, principalmente se têm predisposição genética. Um estudo que durou 15 anos acompanhou mais de 45 mil suecos que inicialmente não demonstravam sintomas psicóticos. Os pesquisadores constataram que os voluntários que consumiam maconha aos 18 anos eram 2,4 vezes mais propensos a serem diagnosticados com distúrbio do que seus pares que não usavam a cannabis (o risco se intensifica com a frequência). A mesma associação foi encontrada nos participantes que consumiam outros tipos de droga.

No entanto, apesar dos resultados e do aumento do uso da erva na década de 1970 e 1980, outros pesquisadores não observaram maior incidência de esquizofrenia na população sueca, o que sugere que pessoas que com predisposição a desenvolver o transtorno têm maior tendência a consumir a maconha. Outro estudo, realizado na Austrália por aproximadamente 30 anos, também não encontrou aumento no diagnóstico da patologia entre a população geral, apesar de maiores índices do uso da cannabis entre adolescente. Os cientistas concluíram que, apesar de a droga provavelmente não causar esquizofrenia, seu uso pode desencadear psicose em pessoas vulneráveis ou agravar um problema existente.

Você pode saber mais sobre o assunto na Mente e Cérebro n. 259, Maconha: o que a neurociência tem a dizer.

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