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A metáfora do iglu

Livro enfoca separação e atendimento psicológico infantil

setembro de 2008
MARIANA MASSARANE
João tem 8 anos e é levado pela mãe para conversar com uma psicóloga. Motivo: os pais se separaram e acreditam que é importante dar ao filho a oportunidade de falar com um profissional sobre o que estava ocorrendo em casa. Essa situação, a cada dia mais comum, é abordada de forma leve e divertida no livro recém-lançado O iglu, (Brinque Book), da premiada escritora e roteirista Flavia Lins e Silva e ilustrado por Mariana Massarani.

Além de abordar a visão infantil diante das novas possibilidades de configuração familiar, a obra lança luz sobre um tema ainda pouco explorado na literatura infantil: o atendimento psicológico de crianças. Como ocorre no atendimento clínico de adultos, o de crianças se fundamenta na transferência, vínculo estabelecido entre paciente e terapeuta, que atualiza afetos reprimidos e possibilita o deslocamento para o presente de sentidos atribuídos no passado a determinadas situações ou pessoas. Para que a expressão infantil seja facilitada o profissional utiliza jogos, desenhos e brinquedos. Esses recursos foram usados, inicialmente, na década de 20, pela psicanalista austríaca Melanie Klein, uma das pioneiras na análise de crianças.

Em O iglu essas técnicas são apresentadas ao leitor. Tudo começa com a palavra “psicóloga”, que o pequeno protagonista transforma em “piscóloga” (alguém que pisca muito). Com a derivação de sentido (algo que freqüentemente ocorre numa análise), instala-se a curiosidade em relação à profissional – e instaura-se assim a transferência, base da relação terapêutica. Munido de papel e lápis e instigado a representar o que lhe vem à cabeça, João desenha um iglu, refúgio imaginário que, ao longo das sessões, lhe permitirá simbolizar temores e fantasias relacionadas à separação dos pais, à chegada de novos companheiros destes e à própria relação com a terapeuta. Ao longo do processo terapêutico, João busca libertar-se do conflito familiar para se tornar sujeito da própria história, transformando o “Iglu moradia do pólo norte” em “iglu cachorro”, fiel companheiro peludo com quem enfrentará futuras tempestades de gelo.