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A mordida da Copa

Psicanalistas pelo mundo afora foram convocados para explicar a estranha mania do uruguaio Luis Suarez. Muitas coisas, porém, não fecham nesse circuito de patologização do caso do centroavante

agosto de 2014
Christian Ingo Lenz Dunker
Gonçalo Viana
Depois que o uruguaio Luis Suárez mordeu o defensor italiano Giorgio Chiellini em plena Copa do Mundo, a Federação Internação de Futebol (Fifa) resolveu puni-lo, de modo exemplar, tanto pelo ocorrido quanto pela recorrência. Psicanalistas pelo mundo afora foram convocados para explicar a estranha mania do centroavante, basicamente lembrando que em momentos críticos tendemos a reagir com referência de organizações pulsionais, mais simples e mais arraigadas.

É a teoria da regressão, fixação, agressão, pela qual devemos aceitar que o “canibal celeste” não estava apenas apelando a um modo mais básico de relação com o outro, um modo que ele não havia superado inteiramente, mas que isso externava uma forma de satisfação infantil, mais precisamente situada entre a organização oral, pelo uso da boca, e a organização anal, pelo exercício cruel da sexualidade. Ficou evidente para todos que Suárez tinha um problema psicológico a ser resolvido.

Muitas coisas, porém, não fecham nesse circuito de patologização do caso do centroavante uruguaio. Ele me lembra certas mães que descobrem assustadas que seu filho foi mordido na escola. Ao procurarem tirar satisfações, se dão conta, horrorizadas, de que seu próprio rebento está incitando a arte de abocanhar os colegas. A chamada fase das mordidas é de grande impacto nos adultos, porque tendemos a esquecer como uma criança pode ser cruel. Na fase das mordidas aprendemos que pode ser muito divertido, além de deliciosamente vingativo, causar dor ao semelhante com os próprios e mais simples meios. Imagine você, alguém que até então havia se especializado em defesas passivas, como o choro, a extorsão amorosa ou o dengo, ao descobrir em si mesmo o poder e a potência para impor tamanho prejuízo ao semelhante.

Quero crer que a Fifa agiu como um desses adultos puritanos, amnésicos e idealizadores de infâncias, que acham que nossas crianças esportivas não podem mostrar sua raiva dessa maneira. Em primeiro lugar, se isso é um problema de natureza psicopatológica, nada de suspensão, multa ou penalidade, o jogador demanda ajuda ou tratamento. Em segundo, o prejuízo causado por um carrinho por trás, um pontapé, uma joelhada pelas costas (como a que Neymar recebeu), ou uma cabeçada (como a de Zidane na final da copa de 2006) é virtualmente muito mais grave do que a mordida de Suárez, mesmo assim a punição do uruguaio foi maior. Em terceiro lugar, há agressões morais muito mais duras, com palavras ou cusparadas, que também recebem punições muito menos rigorosas. Em quarto lugar, fica óbvio que a agressão não respondia a motivação instrumental. No caso de Suárez, a bola estava em outro lugar e ele não visava obter vantagem, enganar o juiz ou desequilibrar seu adversário. A agressão fora desencadeada pela indignação, decorrente da injustiça praticada no lance anterior.

Em tempos de lei da palmada e de humilhação brasileira na Copa do mundo é necessário repensanossa teoria elementar da agressividade para que esta – que é cultural e especificamente determinada em suas modalidades permitidas e interditadas de expressão – não justifique, automaticamente, esse casamento ignóbil entre etnocentrismo e adultocentrismo.

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