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A mulher que nunca sente medo

Com a região da amígdala destruída devido a um problema genético, ela tem dificuldade de perceber sinais sutis e de avaliar riscos

outubro de 2014
Pressmaster/Shutterstock
Já imaginou como seria jamais temer qualquer coisa que fosse? Para a maioria absoluta parece estranho pensar que isso seja possível. No entanto, algumas pouquíssimas pessoas não experimentam nunca a sensação de ameaça, nem mesmo diante de riscos óbvios.

Um dos pesquisadores que vem se dedicando à compreensão desse fenômeno raro é o neuropsicólogo americano Justin Feinstein, do Instituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena. Desvendar esse funcionamento mental pode ajudar a entender fobias e estresse pós-traumático. O cientista tem acompanhado uma mulher identificada como S.M., hoje com 44 anos, que nunca sente medo.

Ela já havia atraído a atenção de cientistas quando chegou ao laboratório do neuropsicólogo Daniel Tranel, da Universidade de Iowa, na década de 80, ao ser diagnosticada com a doença de Urbach-Wiethe, um problema genético com menos de 300 casos identificados no mundo. Os sintomas incluem lesões de pele e acúmulo de depósitos de cálcio no cérebro. S.M. teve a região das amígdalas (área cerebral em forma de amêndoa), nos dois hemisférios, destruída. Como sua lesão específica é rara, Tranel logo percebeu que o caso poderia oferecer uma oportunidade única de compreender melhor as funções dessa região do cérebro.

Exames de neuroimagens revelam atividade nas amígdala durante situações de pavor. O neurobiólogo Mike Koenigs, da Universidade de Wisconsin-Madison, acredita que essa ação pode ser resultado de processos cerebrais ocorridos em outras áreas do cérebro e a estrutura em si talvez não seja imprescindível para a articulação dos sentimentos.

Porém, a experiência com S.M. parece descartar essa possibilidade, considerando que o medo desapareceu de sua vida logo após a lesão cerebral na amígdala provocada pela doença de Urbach-Wiethe. Além disso, outros aspectos emocionais permanecem intactos, o que dá indícios de que a região não seja o centro de todas as emoções como muitos cientistas acreditavam, já que S.M. não é uma pessoa emocionalmente fria. Pelo contrário: é sociável, com forte tendência para viver experiências e sentimentos intensos.

São justamente essas características de sua personalidade vivaz que ajudam a revelar outras nuances das funções da amígdala na vida cotidiana. A abertura excessiva com os outros pode ser positiva em algumas situações – mas nem sempre.

O comportamento de S.M. sugere dificuldades em ler sinais sutis que, para a maioria das pessoas, seriam um alerta para manter-se reservada. A atitude fica ainda mais evidente na hora de lidar com desconhecidos. “Indivíduos frequentemente considerados “suspeitos” são julgados por ela como confiáveis; S.M. demonstra tendência em acreditar nas pessoas e até necessidade de abordá-las”, afirma o neurocientista Daniel Kennedy, da Universidade de Indiana em Bloomington.

Os indícios sugerem que a amígdala processa não apenas ameaças imediatas, mas também pequenas pistas que ajudam a regular o comportamento social. Para S.M., essa condição cria problemas e, obviamente, a expõe a riscos – afinal, é por acaso que o medo está presente em nossas vidas: embora em excesso seja prejudicial, um tanto deles nos protege e nos livrar de muitos problemas.

Saiba mais sobre o tema no Especial Mente e Cérebro n. 43, Por que temos medo, na Loja Segmento.

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