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A pré-história da neurocirurgia na América do Sul

Estudo fornece evidências de que a trepanação era usada pelos incas para tratar infecções

julho de 2008
MUSEU DO PRADO, MADRI
A EXTRAÇÃO DA PEDRA DA LOUCURA, do pintor flamengo Hieronymus Bosch (1450-1516)
A trepanação – procedimento no qual eram feitas perfurações no crânio de seres humanos vivos – é uma prática ancestral que remonta à Idade da Pedra. A razão pela qual o homem pré-histórico a realizava sempre foi tema de grandes debates entre arqueólogos. Alguns pesquisadores acreditam que fazia parte de rituais religiosos; outros defendem sua finalidade médica, como forma primitiva da neurocirurgia que conhecemos hoje. Artigo publicado no American Journal of Physical Anthropology favorece a segunda corrente. O estudo fornece fortes evidências de que o costume foi muito mais comum do que se imaginava e de que os incas, que tinham razoável conhecimento sobre a anatomia do crânio, a usavam para tratar infecções e traumas na cabeça.

Foram analisados 441 crânios encontrados em 11 sítios arqueológicos em Cuzco, Peru, a antiga capital do Império Inca, onde a primeira evidência de trepanação nas Américas foi descoberta em 1865. Perfurações típicas, com formas e tamanhos diversos, foram observadas em 66 crânios. Em mais da metade, elas eram circulares, com diâmetro variando entre 0,3 cm e 7,3 cm. A maioria das peças exibia mais de uma intervenção – em um único indivíduo havia sete orifícios.

Segundo os autores, a trepanação parecia ser praticada principalmente para tratar ferimentos resultantes de batalhas, já que a maioria era do sexo masculino e apresentava lesões na parte frontal da cabeça, possivelmente resultado de combates corpo a corpo. Além disso, outros sinais sugerem que o método era usado para tratar a mastoidite, infecção na região temporal, atrás dos olhos.

O procedimento foi aperfeiçoado pelos incas ao longo do tempo. Os crânios mais antigos (de cerca de 1000 a.C.) não tinham sinais de crescimento ósseo ao redor dos orifícios, o que indica que a trepanação quase sempre levava à morte. Quatrocentos anos depois, as peças indicam sobrevivência de cerca de 90% dos indivíduos. Também foi observada a padronização da técnica: partes do crânio, cuja perfuração poderia afetar as meninges ou grandes vasos sangüíneos, foram evitadas pelos incas mais modernos. Eles também faziam uso mais freqüente de compostos vegetais derivados do bálsamo (anti-séptico) ou da coca (analgésico) durante o procedimento.