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A psicanálise e a contemporaneidade

Com tantas e tão bruscas mudanças, não há tempo para pensar ou refletir. O homem moderno não pode agir, o sistema o obriga a reagir

outubro de 2015
DIVULGAÇÃO
Aloysio Augusto d’ Abreu

Vivemos uma época de mudanças e transformações para a humanidade. As transformações não só aconteceram no campo do conhecimento e da tecnologia, mas também nos comportamentos e valores. Se o homem estava ou não preparado para tantas e tão rápidas alterações não sabemos ao certo, mas queira ou não está tentando lidar com elas.

Tudo acontece muito rápido. São novos conhecimentos que logo se tornam antiquados ou errôneos - como as dietas e vitaminas que um dia fazem bem ou mal e na semana seguinte novas pesquisas desmentem as afirmativas anteriores, novas tecnologias que necessitam ser assimiladas rapidamente, como os aparelhos “de última geração” que se tornam obsoletos após poucos meses de uso. Este é o cotidiano de todos nós neste século: depararmo-nos com mudanças e transformações a cada momento. Somos levados por uma enxurrada de fatos novos que nos esforçamos para assimilar, fugindo do perigo de ficarmos para trás. No trabalho, há a ameaça de sermos ultrapassados por novos conceitos e novas técnicas. Em casa, a complexidade e constantes “atualizações” dos eletrodomésticos colocam muitas vezes os pais reféns dos filhos, pois é muito comum que sejam estes últimos os únicos a saberem usar os aparelhos eletrônicos da casa. Há, também, as mudanças na moral e nos costumes, que frequentemente são as que encontram maior resistência à assimilação.

Com tantas e tão bruscas mudanças, não há tempo para pensar ou refletir, o homem moderno não pode agir, o sistema o obriga a reagir. O que importa são os resultados, os meios tornaram-se secundários. São exigidas soluções rápidas e objetivas.

E a psicanálise como fica na contemporaneidade? Aparentemente deslocada, numa época em que as pessoas não têm tempo a perder, em que as soluções devem ser rápidas, sendo os resultados que interessam. Com os modernos psicotrópicos, “o soma do Admirável Mundo Novo”, que propõe bem-estar e felicidade para todos, como pensar em psicanálise, que demora tantos anos e tem resultados tão duvidosos?

Se nos lembrarmos do final do século passado, quando Freud descobriu a psicanálise, veremos que a nova ciência que surgia contrariava crenças e comportamentos da época. Falava, abertamente, de uma sexualidade que era tabu, mostrava a existência de uma sexualidade infantil em seres que deveriam ser anjinhos assexuados. Tirou o homem de sua “pureza” e da ilusão do poder sobre si mesmo, revelando-lhe a existência de um inconsciente que se encontra além de sua vontade ou de seu controle.

O homem contemporâneo produtivo, capaz e eficiente, vê-se frente a um vazio. O vazio da perda de si mesmo, em que, no afã de ter, se esquece de ser. Tem que possuir o mais moderno aparelho, tem que estar ciente de tudo que acontece no mundo, tem que estar na moda, tem que... . É um “ter que” sem fim. A consequência é a falta de contato consigo mesmo, uma alienação do seu existir em função de uma procura de algo que não é bem sabido nem entendido.

Não se pode perder o contato consigo mesmo, impunemente, fazê-lo é perverter a própria essência do ser humano. À medida que persegue tornar-se esta criatura onipotente que, à semelhança de uma máquina, objetiva o máximo de produtividade e eficiência, realizando suas tarefas, mecanicamente, negando os seus sentimentos em nome de uma suposta competência, este homem perde sua humanidade.

A psicanálise torna-se, neste momento, imprescindível a este homem pós-moderno, que perdeu seus valores e a si mesmo. É ela que, verdadeiramente, tem a possibilidade de resgatar-lhe a humanidade, à medida que poderá tirá-lo da ilusão onipotente de ser esta máquina eficiente e capaz de produzir e consumir ilimitadamente.

Uma possibilidade de fazer com que entremos em contato com nossos sentimentos e tenhamos intimidade com o nosso ser. Sentimos que há um distanciamento destes valores, mas este afastamento é que levará a uma reação inversa no sentido de um retorno, uma nova busca deste espaço para se pensar em si mesmo.

*Aloysio D’Abreu é psicanalista e presidente da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi), que realizará o 25º Congresso Brasileiro de Psicanálise de 28 a 31 de outubro, em São Paulo, com o tema: "Sonho/Ato - A Representação e seus Limites"