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A química por trás dos prazeres do chocolate

Substância envolvida no agradável efeito produzido no cérebro, triptofano é encontrado em abundância também em sêmen de linguado

agosto de 2016
LIMPIDO/SHUTTERSTOCK

Quem já experimentou sabe: consumir um pedaço de chocolate melhora rapidamente o humor. Cientistas concordam com isso. O alimento faz bem às crianças mesmo antes do nascimento, como afirmaram, em 2004, alguns pesquisadores finlandeses. Essa convicção está embasada em um estudo: foi observado que, aos 6 meses, bebês de mães que haviam consumido diariamente um pouco de chocolate durante a gestação eram mais ativos, risonhos e tranquilos. A avaliação foi obtida com a medição da frequência de seus sorrisos e risadas.

O chocolate influencia o humor porque o organismo tem carência de alguns aminoácidos essenciais, entre outras coisas, para produção dos neurotransmissores, as moléculas mensageiras trocadas entre os neurônios. O triptofano serve como produto de base para a serotonina, o “hormônio da felicidade”. Na falta dessa molécula podem se manifestar depressão e estados de ansiedade. De fato, a distribuição de triptofano parece atenuar os sintomas depressivos, visto que quanto mais circula no cérebro mais serotonina é produzida.

O triptofano é encontrado em abundância no sêmen do linguado. Para quem não toleraria essa experiência gastronômica, ainda que em nome do bem-estar, há a opção das castanhas do caju e do pó do cacau sem açúcar. O açúcar no chocolate facilita esse efeito, estimulando o pâncreas a produzir insulina. Isso permite, entre outras coisas, que o triptofano alcance mais facilmente o cérebro, aumentando assim o nível de serotonina e deflagrando sensações de satisfação.

Outros componentes como a anandamida e a feniletilamina têm demonstrado seu efeito positivo no humor. Entretanto, a quantidade dessas substâncias no chocolate é muito pequena para ter um efeito perceptível. Os grãos de cacau contêm, ainda, cafeína e teobromina, uma substância parecida com a cafeína, que provoca leve efeito estimulante e melhora o humor.

Mas segundo o pesquisador Peter Rodgers, da Universidade de Bristol, provavelmente o desejo de comer chocolate tem raízes no psiquismo e na relação emocional que mantemos com a comida do que na sua ação estimulante, propriamente. Afinal, substâncias farmacologicamente ativas – como o triptofano – encontram-se, de fato, também em outros alimentos, mas parece não terem o mesmo efeito sobre o humor. O breve e intenso bem-estar deflagrado pelo chocolate seria provocado por um programa de alimentação evolutivo, que equilibrou o conteúdo nutricional de açúcares e gorduras da nossa espécie, visto que seus componentes – em particular a manteiga de cacau – fornecem energia ao cérebro. Por esta razão o centro neural da recompensa reage ao ver uma barra de chocolate. Quando provamos no palato uma sensação de prazer, esta pode estar associada às nossas expectativas.

No entanto, o consumo frequente desse alimento rico em açúcar costuma acarretar consequências menos positivas, como sobrepeso e diabetes. Revela-se, então, o reverso da medalha: o consumo excessivo dos dois ingredientes principais do chocolate, gordura e açúcar, associado a um estilo de vida sedentário, representa fator de risco para a saúde – e para o bem-estar mental.

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