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A segunda mandíbula

março de 2009
Estudo de um personagem da “Batalha de Anghiari”, esboço de Leonardo da Vinci/Szépművészeti Múzeum, Budapest
Um caso raro, e aparentemente único, de dismorfia corporal acaba de ser relatado por psiquiatras japoneses na revista General Hospital Psychiatry. Em setembro de 2005, um homem de 54 anos, sem histórico pessoal ou familiar de transtornos psiquiátricos, procurou os médicos se queixando de outra mandíbula dentro da sua própria. Dizia ele que “os dentes da falsa mandíbula estão crescendo”. “Eu tento cortá-los com meus dentes reais, mas eles não param de crescer (...) A falsa mandíbula está invadindo a garganta”. Apesar da sensação perturbadora, o paciente continuava trabalhando. Não apresentava qualquer outro sintoma psiquiátrico. A memória, a fala e o humor estavam intactos.

Os psiquiatras prescreveram risperidona, um antipsicótico geralmente usado nos casos de transtornos alimentares, bipolar e obsessivo-compulsivo. O paciente se recuperou em algumas semanas. No inicio e no fim do tratamento, entretanto, ele passou por alguns exames para avaliar o funcionamento cerebral. A ressonância magnética e o eletroencefalograma não revelaram anormalidades. Mas a primeira tomografia por emissão de pósitron (PETscan) mostrou redução do fluxo sanguíneo nos lobos temporal e parietal. Na segunda, quando os sintomas tinham quase desaparecido, as imagens seguiram mostrando as mesmas alterações.

Segundo os autores, os resultados revelados pelo PETscan são consistentes com outros estudos que mostram o envolvimento dos lobos temporal e parietal nas dismorfias corporais. É Interessante notar neste caso, porém, que mesmo depois da remissão dos sintomas, as alterações neurológicas estavam presentes, sugerindo que há um atraso entre a recuperação clínica e a normalização da função cerebral. Algo parecido ocorreu a um paciente com síndrome de Cotard (em que a pessoa acredita estar morta e seu corpo, em decomposição), publicado em 2002. Nesse caso, as alterações cerebrais observadas por PETscan só desapareceram vários meses depois da recuperação clínica.

O artigo do General Hospital Psychiatry pode ser lido na íntegra (em inglês) no endereço: http://tinyurl.com/abuc9a.