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A vergonha que faz bem

Em geral visto como negativo, o constrangimento pode não ser de todo mau. Psicólogos constataram a existência de várias facetas desse sentimento – algumas bastante saudáveis

setembro de 2016
SHUTTERSTOCK

Décadas de pesquisas confirmaram que a vergonha dói. A emoção está associada a uma ampla gama de problemas psicológicos, como a depressão e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), assim como mudanças fisiológicas, incluindo aumento da produção de cortisol (o hormônio liberado em resposta ao estresse) e proteínas que causam inflamações. Segundo esses estudos, sentir vergonha desencadeia uma torrente de sentimentos desconfortáveis que não oferece grandes possibilidades de regeneração. Muito pelo contrário: a vergonha leva os indiví-duos a se tornar irritados e autodefensivos; fazia com que negassem acusações, tentassem se esconder ou mesmo investissem contra o acusador de forma violenta. Algumas pessoas acreditavam que reconhecer a culpa – e consequentemente a responsabilidade – era mais eficaz do ponto de vista psicológico do que entrar em contato com a vergonha.  

Ainda assim, pesquisadores encontraram indicações de que em certas instâncias o constrangimento é eficiente em motivar o bom comportamento. Em 2008, um grupo de psicólogos da Universidade Tilburg, na Holanda, mostrou que, quando as pes-soas sentiam vergonha após imaginar, relembrar ou experimentar um fracasso, agiam de modo mais cooperativo nos dilemas sociais. Um estudo posterior de 2010 revelou que, quando os indivíduos relembravam ou vivenciavam sensação de envergonhar-se em consequência de fracasso em relação a alguma conquista, como um desempenho atlético especialmente ruim ou não passar numa prova fácil, se sentiam motivados a recuperar uma autoimagem positiva e a se esforçar para serem bem-sucedidos. 

Em um estudo longitudinal com 476 prisioneiros, publicado em 2014, a psicóloga clínica June Tangney, da Universidade George Mason, e seus colegas constataram que, entre os prisioneiros, aqueles  que apresentavam sinais de vergonha e não buscavam atribuir sua transgressão a outra pessoa eram os menos propensos a repetir um delito, em comparação aos que se sentiam vítimas da situação ou não assumiam a responsabilidade. “Pode haver situações e pessoas para as quais a vergonha é um veículo para que ocorram mudanças realmente substanciais”, acredita a psicóloga. Há um percurso bem definido começando pelo constrangimento público, seguido pela atribuição de culpa e terminando em comportamento criminoso, segundo ela. Porém, os fatores que levam ao resultado oposto ainda não são totalmente compreendidos. 

Se vergonha se aplica ao ego, uma questão importante e por muito tempo ignorada é simplesmente como esse “eu” é diminuído quando a pessoa faz algo vergonhoso. “É possível pensar: ‘Como pude fazer isso, que tipo de pessoa eu sou?’ ou ‘O que os outros vão pensar de mim?’”, cogita o psicólogo Nicolay Gausel, professor da Universidade Østfold College, na Noruega. Em outras palavras, é uma questão de referencial interno ou externo: podemos nos reavaliar ou ficar preocupados com a opinião alheia. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de agosto de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2bfD9N6 

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