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Adoecer a qualquer custo

Saiba mais sobre a Síndrome de Münchausen, que faz com que a pessoa coloque a própria vida em perigo para ser internada e receber cuidados

novembro de 2013
Francesco Cro
Wavebreakmedia/Shutterstock
Como fazia todas as manhãs, em uma segunda-feira Antonio C., de 40 anos, levou seu filho, de 7, para a escola e depois seguiu para seu local de trabalho. Mas, no meio do caminho, um mal-estar intenso o dominou – e ele mudou de ideia. Correu para um hospital, sem avisar a esposa ou a mãe, com quem mantinha estreito contato. No pronto-socorro queixou-se de uma ansiedade incontrolável e, transtornado, pediu para ser examinado por um psiquiatra ou para falar com um psicólogo.

A decisão de procurar ajuda psicológica nascia de uma situação que lhe parecia insustentável: nos últimos meses, sua família havia descoberto que Antonio tinha grandes dívidas, acumuladas em jogos de azar durante anos. Depois de uma reação inicial de raiva e indignação, os parentes tinham se mostrado compreensivos, mas Antonio sentia-se deprimido, confuso, estressado; não conseguia se alimentar nem dormir. Costumava dizer que tinha enveredado por uma “estrada sem volta”. Foi-lhe, portanto, aconselhada uma internação na ala de psiquiatria, que Antonio aceitou aparentemente de bom grado, ainda que estivesse preocupado com as reações das pessoas da família.

No primeiro exame físico os médicos notaram, além das numerosas cicatrizes nas costas e no abdome do paciente, a presença de um neuroestimulador subcutâneo e de um dispositivo analgésico espinhal que libera morfina lentamente. Esse sofisticado sistema, instalado de forma permanente, era o resultado – como atestavam os registros do hospital – de mais de dez cirurgias na coluna vertebral que o paciente tinha sofrido na última década.

Depois de duas intervenções no joelho esquerdo, quando tinha 30 anos, Antonio se submeteu a operações de hérnia de disco na região lombar da coluna vertebral, o que lhe causava insuportáveis dores; o diagnóstico era lombociatalgia. Segundo os relatórios médicos, o desconforto do paciente persistia, apesar das intervenções cirúrgicas e dos resultados inconclusos dos controles radiológicos (nem a tomografia computadorizada, nem a ressonância magnética eram suficientes para determinar uma origem orgânica para a dor).

Indução de sintomas

Por ocasião das suas consultas recorrentes a neurocirurgiões e especialistas em dor, notou-se que o paciente respondia positivamente à morfina, mas também ao placebo (substância sem atividade farmacológica, mas que em alguns casos pode produzir resposta positiva). Para explicar o “efeito placebo”, os profissionais recorreram ao sistema dos opioides endógenos.

Em virtude da invalidez, Antonio C. cumpria jornada de meio período, mas, muitas vezes, se ausentava do trabalho sem o conhecimento da família. Tinha dificuldade para controlar sua impulsividade, por exemplo, no que dizia respeito aos jogos de azar; sentia-se frequentemente oprimido por uma sensação de claustrofobia e às vezes mergulhava em estado de confusão mental, durante o qual apresentava medo de perder o controle e intenso sentimento de angústia. Os clínicos que o acompanhavam diagnosticaram a síndrome de Münchausen, baseando--se em sua tendência patológica a mentir e na constante procura por internações e terapias cirúrgicas – mesmo na ausência de um histórico objetivo que justificasse a sintomatologia dolorosa.

A mulher e principalmente a mãe de Antonio reagiram mal à notícia de que ele sofria de transtorno emocional. Embora tivessem suportado com grande coragem e disponibilidade as numerosas intervenções cirúrgicas sofridas por ele, não aceitavam que o paciente precisasse de ajuda psicológica. Sentiam-se envergonhadas com a situação e, aos conhecidos que pediam notícias de Antonio, respondiam que estava fora a trabalho. Sob a pressão delas e sem dar aos médicos o tempo necessário para organizar um percurso terapêutico adequado, Antonio saiu do hospital.

O caso, descrito pelas psiquiatras italianas Camilla Callegari, Paola Bortolaso e Simone Vender, do Departamento de Medicina Clínica da Universidade da Insúbria, revela características típicas da síndrome de Münchausen. Trata-se de uma patologia que leva quem dela sofre a vagar de um hospital a outro, simulando as mais variadas condições patológicas e, em muitos casos, a se submeter a numerosas e inúteis intervenções cirúrgicas.

Mas as viagens incríveis e as peripécias mirabolantes narradas no romance fantástico As aventuras do barão de Münchausen, de Rudolf Erich Raspe, de 1785 – obra que inspirou a denominação da patologia – são ofuscadas pela inesgotável fantasia com a qual os pacientes simulam ou provocam em si mesmos as mais diversas doenças. A síndrome de Münchausen pode ser definida como uma patologia da relação médico e paciente: indivíduos afetados por ela provocam intencionalmente em si mesmos a manifestação de sintomas, muitas vezes graves, para serem internados e assumirem a identidade de doente, com todas as “vantagens” que este papel comporta: desresponsabilização, necessidade de proteção e dependência.

Não raro, a pessoa arrisca a própria vida para conseguir uma internação ou uma intervenção cirúrgica. Pode provocar hemorragias ingerindo fármacos anticoagulantes, desencadear crises hipoglicêmicas consumindo insulina ou, ainda, contrair infecções, às vezes graves, contaminando com fezes ou urina feridas preexistentes ou injetando o muco dos ferimentos em várias partes do corpo. E tudo isso não é para conseguir vantagens materiais: o único objetivo dessas pessoas é serem consideradas doentes.

Não existe interesse, por exemplo, de obter ressarcimentos ou incentivos econômicos, evitar o serviço militar, o trabalho, ou então fugir de procedimentos judiciários. Nesses casos, o que se constatam, em geral, são simulações e não procedimentos infligidos pelos pacientes a si mesmos que lhes causam grandes sofrimentos. Foram estudados casos de pessoas que provocavam no próprio corpo enfisemas subcutâneos injetando ar sob a pele, ou abscessos mamários provocados pela introdução de material fecal nas mamas. Em um paciente foram encontrados elevados níveis de radioatividade por causa dos vários exames aos quais ele havia se submetido em poucos dias.

Em geral, os doentes inventam histórias para explicar os seus sintomas. Submetem-se a numerosos diagnósticos, muitos deles invasivos e desconfortáveis. Se os resultados dos exames são negativos, costumam reagir mal, acusando os médicos de incompetência e, por fim, quando são “desmascarados”, quase sempre deixam rapidamente o hospital para dirigir-se a outra instituição. Empreendem, assim, uma espécie de dolorosa “peregrinação hospitalar” – não em busca de cura, mas de cuidados e atenção.

Uma grande variedade de doenças pode ser simulada por tais pacientes: distúrbios abdominais, alterações da coagulação sanguínea, sintomas neurológicos e psiquiátricos, doenças dermatológicas e autoimunes, desequilíbrios metabólicos, patologias renais, cardiopatias, artrite e sequelas de abuso sexual. Exames de imagem do cérebro desses pacientes mostram que muitos deles apresentam lesões ocorridas precocemente no córtex pré-frontal. A existência de disfunção nessa área cerebral, entretanto, não é determinante da síndrome.

Por procuração

Um caso particular é o da chamada “síndrome de Münchausen por procuração”, descrita pela primeira vez em 1977 pelo pediatra inglês Roy Meadow, na qual a pessoa simula ou provoca uma doença em outra pessoa para chamar a atenção sobre si, suscitar sentimentos de reconhecimento, compaixão e, por fim, o papel de quem, exaurido pelos constantes cuidados que dispensa, também precisa ser atendido. Muitas vezes trata-se de mães com características de personalidade borderline, que provocam voluntariamente feridas ou lesões nos próprios filhos, ou ainda os envenenam, como no filme O sexto sentido, de M. Night Shyamalan, de 1999, no qual o fantasma de uma menina revela ao protagonista ter sido envenenada com detergente pela mãe.

Um estudo do Departamento de Pediatria do Children’s Hospital and Regional Medical Center de Seattle, publicado na Pediatric Nephrology, examinou fichas de 135 pessoas com síndrome de Münchausen por procuração. Os casos ocorreram ao longo de mais de três décadas. Um quarto das crianças apresentava sintomas no aparelho urinário ou suposto abuso sexual, sendo o autor da simulação, na quase totalidade dos casos, a mãe. Em média, o intervalo de tempo transcorrido desde o início dos sintomas até o reconhecimento da farsa era de quatro anos e meio – o que é bastante tempo, principalmente se levarmos em conta que, muitas vezes, os danos provocados pelos procedimentos de simulação tinham causado a morte das pequenas vítimas.

Apesar da predominância feminina nesse tipo específico de manifestação da patologia, de forma geral a síndrome de Münchausen é mais frequente em homens e também se associa, muitas vezes, a traços de personalidade borderline ou antissociais. Entre os fatores de predisposição à doença podem estar experiências de abandono ou maus-tratos vividos durante a infância, mas, sobretudo, se destaca nas histórias desses pacientes sua frequente relação com médicos: a maioria foi submetida a longos tratamentos por doenças reais quando criança ou são profissionais de saúde.

Esse texto faz parte da edição especial "Quando o cérebro e a mente adoecem". Adquira já o especial para ler mais matérias sobre o cérebro e a mente.