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Adoráveis manipuladores

Cães têm inteligências múltiplas, além de "maneiras únicas" de compreender seus donos e usar suas habilidades para obter o que querem

dezembro de 2013
Anna_Huchak/Shutterstock

Os donos de cachorro, em geral, estão convencidos de que seu animal de estimação é um verdadeiro gênio. Apesar disso, durante muito tempo os cientistas não levaram a questão muito a sério. Atualmente, no entanto, diversas pesquisas sugerem que os cães são bastante inteligentes e são também únicos, têm características e maneiras próprias de se expressar. O antropólogo Brian Hare, professor adjunto do Departamento de Antropologia Evolucionária e do Centro de Neurociência Cognitiva da Universidade Duke, é um dos principais pesquisadores do tema.

Assim como pessoas têm talentos variados, cachorros também são “indivíduos” e podem ser bons em coisas diversas. Porém, as estratégias às quais esses animais recorrem nem sempre são evidentes sem avaliações cognitivas. Por isso, não raro subestimamos a capacidade desses animais.

O antropólogo observa que, como espécie, os cães são notáveis em alguns aspectos: compreendem a perspectiva visual de uma pessoa e aprendem com as ações do dono. Em sua pesquisa, Hare procurou saber como os cachorros buscam convencer os humanos a atender a suas vontades. A maior parte dos seus estudos com esses animais têm sido sobre sua capacidade cooperativa, o modo como se apropriam de gestos de comunicação humana e os utilizam. Basicamente, a proposta é descobrir de que maneira interpretam nossos sinais para nos entender – e, assim, conseguem obter o que querem.

Baseando-nos na teoria evolucionista, constatamos que cada animal desenvolveu inteligência de maneira particular, moldada pela natureza e pelas experiências de cada espécie. No caso dos cachorros, a capacidade que se destaca é a de ler gestos de comunicação humana. Essa habilidade permite que eles sejam incríveis parceiros sociais do homem. Além disso, essa característica é fundamental para conseguir que alguém os auxilie na hora de resolver problemas que não podem solucionar por conta própria.

Tendemos a imitar as ações e os movimentos de outras pessoas. A capacidade de “pegar” emoções alheias é chamada de contágio emocional. O fenômeno está relacionado à capacidade de empatia. Indícios sugerem que cães também têm essa habilidade. Avaliá-la em seu animal é muito fácil: apenas tente bocejar e perceba se ele copia sua ação. Embora simples, a avaliação pode dizer muito sobre seu cachorro. A repetição do gesto mostra que ele provavelmente tem uma grande conexão emocional com o dono “bocejador” e é capaz de prestar atenção em manifestações como alterações no tom de voz, movimentos corporais e até expressões faciais que denotem estados de humor ou prenunciem comportamentos.

Hare reconhece, no entanto, que édifícil determinar com exatidão quando de fato os cães agem com empatia em relação a seus parceiros humanos e em que momento se trata apenas da imaginação do dono ou de sua necessidade de acreditar que o animal realmente o compreende, projetando nele os próprios sentimentos e expectativas.

No entanto, estudiosos costumam concordar que há algo definitivamente singular no vínculo com os cães: sua habilidade em entender nossos gestos por meio dos quais nos comunicamos oferece indícios de forte sintonia conosco. “Alguns estudos mostram que esses bichos preferem passar o tempo em companhia dos humanos a ficar com os de sua própria espécie, um comportamento de maneira geral bastante incomum num animal”, afirma Hare.

Você leu um trecho da matéria "Adoráveis Manipuladores’", da edição nº251 da revista Mente e Cérebro. Adquira já sua revista para saber mais.