Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Notícias

Alexitimia: a dificuldade de dar nome aos sentimentos

Valores culturais e normas de gênero podem contribuir para o traço de personalidade marcado pela incapacidade de reconhecer estados emocionais internos

setembro de 2014
Tori Rodriguez
Diego Schtutman/Shutterstock

A maioria de nós aprende na infância a diferenciar as emoções, quando figuras parentais nos ensinam palavras para nomear o que sentimos. Não é nenhuma surpresa, então, que muitos pesquisadores suspeitem que fatores relacionados ao desenvolvimento desempenhem um papel importante na alexitimia, um traço de personalidade caracterizado pela dificuldade de identificar e descrever os próprios sentimentos.

Pessoas com essa característica tendem a pensar em termos concretos e utilitários, em vez de privilegiar a experiência interna, além de ter capacidade de imaginar, fantasiar e sonhar bastante limitada – o que sugere que o traço está relacionado a dificuldades mais amplas para lidar com aspectos internos.

Em 2012, pesquisadores do Hospital Erenköy, em Istambul, desenvolveram um estudo sobre a história de vida de pacientes com alexitimia e comprovaram o que já supunham: situações de negligência e abuso emocional colaboram para o surgimento do quadro.

Valores culturais também podem contribuir para a diminuição da importância da experiência emocional. Um estudo de 2013 comparou 388 espanhóis, que prezam a liberdade e a individualidade, com 537 uruguaios, que pertencem a uma sociedade mais tradicional e coletivista. Estes últimos relataram atribuir menos importância ao compartilhamento de emoções do que os espanhóis. Da mesma forma, vários estudos realizados pelo psicólogo Andrew Ryder, da Universidade Concordia, em Montreal, revelam que a cultura tradicional chinesa não reforça o pensamento autocentrado, incentivando as pessoas a olhar para os outros. No entanto, uma cultura coletivista não precisa necessariamente favorecer a alexitimia. Ryder ressalta que, apesar do foco externo, não identifica prejuízos na consciência emocional desse tipo de sociedade.

Normas de gênero também influenciam. Papéis sociais tradicionais, não raro, desencorajam os homens a prestar atenção às suas emoções e a atribuir importância a elas. A tendência levou pesquisadores como o psicólogo Ronald F. Levant, da Universidade de Akron, a desenvolver o conceito “alexitimia normativa masculina”, relacionado à ideia de jovens “emocionalmente atrofiados”.

Ele observa que os homens têm mais tendência que as mulheres a desenvolver uma variante não patológica de alexitimia. Alguns dados sustentam a posição. Um estudo de 2008, por exemplo, de psicólogos da Universidade do Estado do Arizona apontou que americanos de origem mexicana que se declaravam machistas (levando em conta a validação de comportamentos estereotipados masculinos, com ênfase na força física, agressividade e sexualidade) também apresentaram maior grau de alexitimia.

Circunstâncias difíceis também podem produzir crises temporárias de alexitimia. Nesses casos, traumas ou incidentes depressivos tendem a provocar uma desconexão aguda da consciência emocional. Essa condição é ainda menos pesquisada e compreendida do que a alexitimia como traço estável e duradouro.

Saiba mais sobre a alexitimia na matéria Sentimentos sem nome, da Mente e Cérebro n. 260.

Leia mais

Interocepção: conheça o sentido responsável pela consciência do estado interno corporal
Alterações dessa percepção podem estar por trás de distúrbios alimentares e até transtornos graves que prejudicama capacidade de perceber sede, fome ou frio

Novas pistas sobre origem da alexitimia