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28 de novembro de 2011
O poder da amizade
Laços afetivos ajudam a superar o desconforto em uma sociedade cada vez mais individualista e solitária
por Maria Consuêlo Passos
®Shutterstock
Compartilhar a vida. Eis um grande desafio em tempos de hipervalorização da individualidade e de enfraquecimento dos laços. Enfrentamos uma época de contradições em que, de um lado, vivemos cada vez mais solitários e, de outro, criamos permanentemente novas possibilidades de convivência. Hoje são inquestionáveis os desdobramentos da família e a abertura para diferentes modos de relações amorosas, parentais e filiais. Isso significa que as sociedades mais libertárias acolhem as idiossincrasias das demandas amorosas e sexuais dos seus sujeitos e lhes oferecem oportunidades de procriação.



Além disso, verificamos uma crescente reabilitação das possibilidades de fazer amizades, incentivadas pela variedade de contextos que favorecem o encontro, com distintas finalidades, seja para o lazer, a prática de esportes e da religião ou mesmo na militância em diferentes associações de defesa dos direitos civis e da cidadania. Entretanto, mesmo com o incremento desses espaços de convivência, a vida continua cada vez mais solitária, e as relações, mais efêmeras nos grandes centros urbanos. Tais evidências são reveladas não só nas pesquisas, mas também na clínica, onde os sofrimentos psíquicos advindos da solidão, da violência relacional e das autodestruições continuam em escala ascendente. Por mais que as descobertas técnico-científicas favoreçam a manutenção da vida, continuamos vulneráveis aos perigos do contato humano.



O individualismo e a solidão têm se tornado características muito fortes da vida nas sociedades ocidentais, obrigando os cidadãos a buscar novas experiências que pudessem sustentar o desconforto e o sofrimento advindos dessas imposições sociais. Analisando esse contexto, a amizade seria uma opção às imposições da sociedade e representa uma saída para a fragilidade das relações surgidas com as exigências da modernização que produziram uma vida solitária e ameaçadora. Entretanto, esse aspecto compensatório da amizade não é o que mais interessa ao filósofo Michel Foucault, um estudioso do tema, e sim o seu caráter transgressivo e de resistência, na medida em que este impulsiona a invenção de formas de vida capazes de implementar uma existência libertadora. Afinal, ele via na amizade a possibilidade de transpor as amarras institucionais das relações, de romper com as formas preestabelecidas e criar novas maneiras de estar criativamente com o outro.



Ao tentar decifrar os sentidos da amizade, Foucault imprime à discussão uma dimensão ética por meio da qual os sujeitos são capazes de romper com os padrões de moralidade vigentes e redimensionar sua vida, criando um estilo próprio de existência. Esse estilo poderá ser recriado permanentemente na presença do outro, o que nos permite pensar em uma sociabilidade que foge ao caráter burocrático e institucionalizado, duas facetas execradas pelo pensamento foucaultiano, que pretendia, acima de qualquer coisa, evidenciar dois aspectos: reinventar a vida por meio de suas relações e barrar o poder inerente à dominação de um sujeito sobre o outro.



É preciso reconhecer que algumas dessas evidências trazidas por Foucault se tornaram realidade. Embora a vida solitária e a vulnerabilidade dos laços de afeto venham revelando um efeito nefasto, adoecendo pessoas e levando-as a diferentes tipos de sofrimento psíquico, é necessário reconhecer que nas últimas décadas têm surgido várias formas de convívio: a família vem sendo reinventada, dando lugar a deslocamentos e transformações nas suas funções e papéis. Hoje é possível verificar, por exemplo, fortes laços e amizade em casais que procuram ajuda de outros para uma procriação assistida. É o caso, por exemplo, de dois homens que buscam uma amiga para receber o sêmen de um deles e conceber uma criança. Algumas vezes forma-se aí uma relação consistente, um misto de amizade e de família, fruto de uma operação não só biológica mas também simbólica, já que um dos parceiros se mantém ausente da procriação de uma criança com a qual poderá, mais tarde, constituir uma relação parental. Há ainda duas outras manifestações interessantes de amizade: a trazida por casais que se separam e, ao constituir novas relações amorosas, mantêm os antigos parceiros no rol dos amigos; e as relações amistosas criadas pelos filhos dos diferentes casamentos de seus pais.



Enfim, se de um lado as relações humanas permanecem frágeis, tensas e em muitos sentidos desestimuladas pelo cotidiano massacrante do trabalho e pelas imposições do mundo fragmentado em que vivemos, de outro, elas têm atualmente maior amplitude de possibilidades de criar e recriar experiências, tanto na vida privada como na pública. Além disso, nos últimos anos as sociedades têm se tornado mais libertárias, e, em consequência, os sujeitos adquirem mais recursos para reconhecer e lutar por seus direitos civis. Gilles Lipovetsky talvez tenha razão ao escrever: “Quanto mais frustrante é a sociedade, mais ela promove as condições necessárias para uma reoxigenação da vida
Maria Consuêlo Passos psicanalista de casal e família, doutora em psicologia social, pesquisadora de temas de família e desenvolvimento humano, docente do programa de pós-graduação em psicologia clínica da Universidade Católica de Pernambuco.